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Agostini, crítica e história

Pablo Pereira

05 Fevereiro 2010 | 19h15

É do italiano Angelo Agostini o desenho, reproduzido aqui, de dois cidadãos paulistanos remando numa canoa em plena rua alagada de São Paulo do Século 19.  Caricaturista, criador de histórias em quadrinho, Agostini usava o talento para a ironia para exercer em jornais e revistas sua crítica política — e se divertir observando os costumes.

Ele migrou para São Paulo em 1859. Foi contemporâneo de figuras importantes, como Luís Gama, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José Maria da Silva Paranhos, que viveram aqueles tempos de agitação acadêmica e política do Largo São Francisco pré-república.

Era época de efervescência estudantil e de florescimento de jornais e revistas na cidade, ainda com seus meros 40 ou 50 mil habitantes. Houve ali naquelas décadas o surgimento em São Paulo de publicações como Diabo Coxo, em 1865, O Cabrião (1866), O Coaracy (1875).

As caricaturas são eficientíssimas na comunicação. Agostini as unia a pequenos textos. O barão do Rio Branco, por exemplo, que é o nosso José Maria aí do segundo parágrafo, foi uma figura adorada pelos caricaturistas, com seu perfil ovalado e sua história riquíssima de bastidores.

E Agostini era um desses privilegiados pela natureza no humor. O desenhista foi, com o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, também já conhecido aqui do Garoa, um documentarista. Ele nos permite, por meio da dedicação de colecionadores e pesquisadores de hoje, trazer para século e meio depois as imagens e o ambiente de seu tempo.

Um belo artigo sobre essas figuras do passado da cidade, atualíssimas como as águas que sobem nas ruas, foi escrito por Heloísa de Faria Cruz, mineira, doutora em história pela USP, no livro organizado por Paula Portas sobre a cidade no Império. Doutora Heloísa conta detalhes da vida de Agostini no texto “A imprensa paulistana: do primeiro jornal aos anos 50”. Um outro texto sobre esse italiano inquieto é de Rosangela de Jesus Silva, que o

Documento

para a Unicamp.

Já falei aqui também sobre jóias existentes no Arquivo Público do Estado. Agora recebi informação sobre o trato que está sendo dado a publicações daquela época. Há lá diversos tipos, alguns muito curiosos: anticlerical (A Lanterna), anarquista (La Barricata, em italiano), integralista (Anauê). E outras revistas, como O Malho, editada no Rio, para a qual Agostini também desenhava.

 Tenho usado o Arquivo para andar (virtualmente) por aquele mundo de Agostini. Ele e seus amigos baixavam o “malho” nos poderosos de seu tempo. E tenho me divertido. Quase como se divertiam o então jovem Rio Branco e seus colegas de Direito quando iam nadar sem as roupas no Tamanduateí.