Jardins do A, do B …
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Jardins do A, do B …

Pablo Pereira

03 Fevereiro 2010 | 15h19

A cidade de São Paulo tem hoje cerca de uma centena de bairros nomeados com a palavra Jardim. Há os famosos Jardins, região entre as avenidas Paulista e Faria Lima, construídos no início do Século 20, pela Companhia City, que começou tudo com o Jardim América, sucesso imobiliário nos anos 30 e 40, com infra-estrutura bem acabada, no modelo inglês, construções de alto padrão e gente de alto poder aquisitivo. Depois surgiram as áreas mais verticalizadas. O ícone atual desse modo de vida requintado é a Rua Oscar Freire, no Jardim Paulistano (ver texto abaixo*), com suas lojas de grifes da Rebouças à Alameda Casa Branca. Mas, nos últimos dois meses, há um outro Jardim muito presente na mídia. Submerso desde dezembro, o Jardim Romano é uma comunidade de periferia, que cresceu rápido com a expansão populacional no rumo dos alagados do Rio Tietê, perto da Rodovia Ayrton Senna, região paulistana de São Miguel, quase divisa com Guarulhos e Itaquaquecetuba.

 São Miguel tem origem na relação dos índios Guaianaz com o Padre Anchieta, idos da segunda metade dos 1500, da qual surgiu a capela de São Miguel Arcanjo.

 Muito pobre, o jovem Jardim Romano tem na vizinhança diversos outros jardins: Jardim Pantanal, Jardim Horizonte, Jardim Santa Margarida e Jardim Helena. São os Jardins do B – ou do C e do D, para não fugirmos das letrinhas que os especialistas em classe e renda usam para rotular camadas sociais.

Durante algum tempo, o Jardim mais famoso por suas misérias na cidade, principalmente na temporada das águas, foi o Jardim Pantanal. Deu bastante mídia. Hoje, não. Perdeu espaço para os vizinhos Romano e Helena, cujas ruas estão cobertas de água, lodo e descaso do poder público.

 Essa área, após 60 dias de sofrimento, só agora parece que vai receber mais atenção da Prefeitura, via um Decreto de Calamidade, que promete ações pelos próximos … 90 dias. Romano já passou o Natal e o Ano Novo, mais o aniversário da cidade, dentro d’água e vai, provavelmente, passar o Carnaval também. Com o tempo do jeito que está e a velocidade do socorro, viverá por mais ou menos metade do ano na lama.

Enilson Rocha Chaves em 10 de dezembro (foto de Sergio Neves/AE)

Enilson Rocha Chaves, 10/12/2009 (clique na foto de Sergio Neves/AE)

Como lembra o livro São Paulo, 450 bairros, 450 anos, o vizinho Jardim Helena é mais o antigo naquele pedaço. É do final dos anos 50, quando a região ainda concentrava população indígena, tinha diversas chácaras e era explorada por olarias. Em seguida veio ali por perto o Irene, que passou a ser bairro nos anos 60.  Depois, o Pantanal, que é do início dos anos 80, nasceu da ocupação dos terrenos por população sem-teto em busca de alternativa de moradia.

É a repetição de uma ocupação desordenada nos arredores da cidade, como ocorre em outras áreas de mananciais e encostas – e pelo país afora. Os terrenos existem, a população precisa se estabelecer, mas o poder público é um fracasso. Está sempre a reboque, correndo atrás, sem visão nem de médio prazo.

(texto alterado em 12/08 para esclarecimento abaixo, após comentário do leitor Pedro Luiz)

*Sobre a localização da Rua Oscar Freire: a rua não se localiza somente  “no bairro Cerqueira César”, como afirma o leitor Pedro Luiz em comentário enviado ao blog. Oficialmente ela se divide entre os bairros Pinheiros e Cerqueira César, segundo os Correios. Mas há localizadores de endereços que a colocam também como Jardim Paulista – e até casos de correspondências comerciais que usam Jardim Paulistano. A Rua Oscar Freire é um dos principais ícones do requintado comércio dos Jardins.