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Outros carnavais

Pablo Pereira

11 Janeiro 2010 | 15h46

Carnaval, carros alegóricos, fantasias e desfiles são coisa de mais de século em São Paulo. A inspiração, no Séc. 19, vinha da Europa, dos carnavais de Veneza. Os primeiros desfiles de carnaval na rua, o corso, ocorreram na cidade no percurso das ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento. Depois, como lembra a historiadora Marcia Camargos no livro Villa Kyrial, crônica da Belle Époque Paulistana, o corso se transferiu para a Avenida Paulista.

 O grande momento do carnaval, na virada dos Séculos 19 para o 20, era a tarde do domingo, quando pela recém-inaugurada Paulista desfilavam os carros enfeitados “percorrendo o trecho que ia da Praça Osvaldo Cruz ao final da avenida”. Desfilavam cadillacs conversíveis e o povo se aglomerava nas calçadas para se divertir. Os menos abastados alugavam caminhões e desfilavam sobre as carrocerias adornadas por fitas e flores.

Carro alegórico no carnaval de 1915 desfila na Av. Paulista

Carro alegórico da Villa Kyrial desfila na Av. Paulista em 1915

Um dos carros que deu muito o que falar num desses carnavais foi o da Villa Kyrial, como era conhecida a casa do senador José de Freitas Valle, retratado no livro de Marcia Camargos.

“O florista Nemitz pôs em prática antiga ideia de Valle. Construiu sobre um caminhão uma cesta enfeitada, dentro da qual se colocaram cerca de trinta pessoas, entre artistas e amigos do senador, vestidos de pierrô branco com botões vermelhos. Esse carro causou furor no corso, precedido pelo automóvel do ‘chefe’ Freitas Valle”.

José de Freitas Valle foi personagem polêmico da cidade. Rico, político influente, gostava de artes e financiava artistas. A casa dele, na Avenida Domingos de Morais, foi, por muito tempo, palco de saraus e de encontros de artistas. Era frequentada por gente como Victor Brecheret, Guilherme de Almeida, Mario de Andrade e Anita Malfatti.

Mas Freitas Valle foi também, como recorda Marcia Camargos, muito criticado por Monteiro Lobato e outros que o achavam um imitador da França “que flanava pelo Trianon entre flores exóticas, ensacado à francesa”, além de ser considerado um adepto de práticas políticas mais preocupadas com a autopromoção.

Freitas Valle, o mecenas carnavalesco, criador da Villa Kyrial, morreu em 14 de fevereiro de 1958. Durante o carnaval. O casarão Villa Kyrial, na Vila Mariana, durou pouco. Foi demolido em 1961.