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Almoço, às 9h; jantar, às 14h

Pablo Pereira

23 de dezembro de 2009 | 10h44

São Paulo mudou muito, costumam dizer saudosos paulistanos. Têm razão. Outro dia, lendo sobre a gastronomia na cidade encontrei no trabalho de Alzira Lobo de Arruda Campos uma curiosa descrição do que eram os prazeres da mesa na virada do Século 20. Por lá já se comia, em datas festivas, o peru recheado e o leitão, que estão presentes em muitas ceias atualmente. Eram comuns também as empadas e os doces caseiros, como o doce de batatas ou de figo e o maravilhoso arroz de leite.

Mas o que mudou radicalmente, observando-se o relato da historiadora, foi o horário das refeições. “O almoço, às nove horas; o jantar, às duas. Às vinte horas, já noite, era servido chá com torradas, biscoitos e pão-de-ló”, conta Alzira. Existiam, mas eram raras, as famílias que faziam em casa à noite as “ceias de garfo”. No dia a dia, as famílias paulistanas de cem anos atrás tinham, em geral, cardápio com arroz, feijão, sopa, e carnes ensopadas – galinha, porco, carneiro ou vaca. E, nos finais de semana, grupos de amigos e famílias podiam, “por dez tostões por cabeça”, entrar nas chácaras dos arredores em busca de pitanga e gabiroba ou para “chupar jabuticaba no pé”.

Uma outra maravilha, relembrada pela escritora, era o hábito de caçar tanajuras para fritar. Ainda hoje é costume em comunidades do interior paulista. Outro dia vi isso acontecendo no Bosque da Princesa, um parque de Pindamonhangaba. As formigas, coitadas, apanhadas em pleno voo, vão direto para a frigideira. Viram tira-gosto, como em São Paulo na virada do século. “Saúvas-fêmeas torradas, vendidas em tabuleiro e consumidas às escondidas pela elite, pois era considerado um hábito de ‘bugre’, indigno com a civilidade dos novos tempos”, escreve Alzira. O texto dela também é uma delícia.

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