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Viva a república!

Pablo Pereira

20 de dezembro de 2009 | 21h52

São Paulo é um termômetro brasileiro. A grande metrópole dá as tintas na economia, dita o tamanho dos estoques e do consumo, mexe nas linhas do gráfico do PIB, não pode ficar de fora de nenhum cálculo sério sobre o rumo político nacional — e chama a atenção do país até nos dias de enchente. Os números são gigantes. Conta-se gente aos milhões, orçamentos aos bilhões, ruas aos milhares, restaurantes idem, espetáculos em cartaz às centenas, favelas também – e, às dezenas, os mortos pela violência diária.

Em São Paulo, como em muitos outros grandes centros urbanos, convivem os extremos da alegria e esperança com tristeza e desamparo. O problema é que na metrópole esses extremos ocorrem em larga escala. E, neste aspecto, a cidade – aqui peço licença a Claudia Belfort, do Sinapses – revela um comportamento bipolar.

Já me referi no Garoa ao fato de que há muita gente que enxerga a dureza dessas chagas que a sociedade ainda não curou, a despeito da discurseira e de alardeados programas sociais bem-intencionados, mas mal executados pelos poderes públicos.

Nestes dias de balanços e retrospectivas, certamente essa parte “vetusta”, como dizia o Barão do Rio Branco ao se referir a São Paulo colonial, há que ficar no horizonte, para nos lembrar da vida lá fora. Mas é preciso celebrar o alto-astral paulistano — igualmente festejado pelo Barão. Em discurso a estudantes, quando já era um influente líder do Itamarati, disse ele: “Revejo a cidade em que tive a fortuna de passar alguns dos melhores anos de minha vida”.

O Barão cursou, como Rui Barbosa, embora em ano diferente, a hoje centenária escola de Direito do Largo São Francisco. E viveu em repúblicas de estudantes. Dessas que hoje, 150 anos depois, ainda alegram a cidade, sustentadas na oferta de milhares de vagas universitárias, muitas delas em escolas de primeira, outras nem tanto.

No prédio onde moro há uma república. Animadíssima. Alguns síndicos e moradores conservam uma visão, digamos, jesuítica, quando reclamam das seculares habitações juvenis.

Alvaro Lins, na biografia do homem que há um século traçou o mapa nacional como é hoje, lembra que, em 1862, o então jovem Juca Paranhos, filho do senador José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, chegou a São Paulo como um dos 135 calouros do ano. Contando a vida do Barão, Lins revela um pedaço da vila colonial e lembra que já naqueles dias veteranos aplicavam trotes nos novatos. Mas as brincadeiras eram bem diferentes das de hoje. Ao chegarem, lembra o biógrafo do Barão, Rio Branco e seus colegas tiveram de recitar versinhos.

“Juro e prometo

Por esta zorra

Que hei de ser burro

Até que morra…”

A primeira república estudantil na qual morou o Barão foi na Rua Riachuelo. Depois, mudou-se para uma outra, numa esquina, que ficava na região da Sé: no Beco dos Cornos.

Como também dizia Emílio Zaluar, citado por Lins, São Paulo depende do viço cultivado na academia. “Tirem a academia de São Paulo e esse grande centro morrerá inanimado”, pregava Zaluar. Se, naquela época, Zaluar dizia que a vila era “triste, monótona e desanimada” e que precisava da estudantada para agitar o pedaço nos teatros e festivais, o gigantismo e a busca pela necessária excelência dos dias atuais tornaram a presença festiva da moçada ainda mais indispensável.

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