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Organizaram a festa, virou carnaval

Pablo Pereira

14 Fevereiro 2010 | 16h55

O carnaval em São Paulo nasceu da organização de uma manifestação popular chamada entrudo, importada de Portugal, muito praticada na cidade até o fim da primeira metade do Século 19. Era mais ou menos assim: homens e mulheres iam às ruas para uma batalha de água e farinha e também bolas de cera durante três dias, no começo da Quaresma, começando num domingo.

Era um hábito bem popular, comum aos escravos. Mas logo as classes mais abastadas aderiram à diversão. E começaram a mudar a festa. Nasceram as guerras de água de cheiro, que até bem pouco tempo eram bem comuns nos salões, com os lança-perfumes e serpentinas. Nos bailes de carnaval das crianças de hoje brinca-se também com os confetes e aquelas bisnagas de espumas.

Debret descreveu esse costume na São Paulo daquela época, lembra, em artigo sobre o tema, a historiadora Alzira Lobo de Arruda Campos, que já citei aqui. Ela recorda ainda o inglês João Mawe, que contou as batalhas nas quais os participantes ficavam tão molhados “que parecia terem sido pescados de um rio”.

Aí entrou a turma do controle de exageros da sociedade. E a brincadeira popular, tida então como rude, foi sendo enquadrada em regras até virar uma festa em recinto fechado: os bailes nos clubes. O primeiro, ou mais marcante, segundo pesquisa de Alzira Campos, foi o do Hotel Universo, em 1855. E o carnaval nasceu, então, “como uma conquista da civilização!”

Em 1860, conta a historiadora, o Correio Paulistano comemorava os cinco anos do aparecimento do carnaval, que viera, com brilhantismo, substituir o “desengraçado e estúpido” entrudo. Ensina ela que, em seguida, com o crescimento no número de clubes e associações de classe pela cidade, foram então condenadas as festas em praças e largos,  e a festança passou a se concentrar nos bailes.

A pesquisadora Olga de Morais Von Simon, citada por Alzira Campos, esquematizou o surgimento e crescimento do carnaval em São Paulo em quatro estágios principais, da seguinte forma:

O primeiro, de 1867 a 1876, quando a brincadeira de rua é substituída pela folia nos salões. A segunda, de 1881 a 1886, quando o entrudo reage contra o que chamado carnaval veneziano, das máscaras. Aí as autoridades sufocam essa revolta e proíbem os a brincadeira em praças e largos.

 O terceiro ponto, segundo ela, vai de 1891 a 1901. É a fase da riqueza do café, das liberdades republicanas, da chegada de levas de imigrantes europeus. Esse período devolve a festa às ruas, porém, com o luxo e o requinte dos bailes de fantasias dos clubes. E, por último, de 1905 a 1915, que é o tempo dos desfiles de mascarados em carros abertos pelas ruas da cidade.

O corso ganhou força a partir de 1911 na jovem Avenida Paulista. Eram domingos de carnaval com foliões fantasiados a desfilar em seus automóveis, como lembra Marcia Camargos, no livro Villa Kyrial, Crônica da Belle Époque Paulistana.

Nos domingos de carnaval costumava haver almoços a fantasia, a que os convidados compareciam mascarados, só se dando a conhecer quando à mesa iniciavam a refeição”, conta Marcia Camargos ao traçar o perfil de Freitas Valle, o mecenas da Vila Mariana, já mostrado aqui no Garoa.

 Depois de décadas de forte influência inglesa, São Paulo flertava com a França. E correriam ainda anos para que a busca pela identidade local amadurecesse e as afirmações culturais de brasilidade ganhassem fôlego.

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