Violência, comprimidos e saias

A semana não foi fácil! Enquanto a violência e a truculência corriam soltas nas ruas de São Paulo, nossos governantes posavam de pernas cruzadas nos palacetes de Paris, tentando vender a cidade como sede da Exposição Universal em 2020, novas informações sobre a tentativa de suicídio da filha do cantor Michael Jackson, na Califórnia, trouxeram à tona o preocupante aumento desse tipo de comportamento entre os jovens e, ainda, alunos de saia protestaram contra o que consideraram intolerância em um dos colégios mais tradicionais da cidade.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h04

O áudio das gravações do pedido de socorro divulgado pelo Departamento dos Bombeiros de Los Angeles (EUA) trouxe novidades sobre a suposta tentativa de suicídio de Paris Jackson, filha do cantor Michael Jackson, cuja morte completa quatro anos no próximo dia 25.

Paris ligou para pedir ajuda, tomou 20 comprimidos de um analgésico (que dificilmente causaria sua morte) e cortou seu braço com uma faca de cozinha, em um episódio que lembra muito mais um momento de desespero e de automutilação do que uma tentativa planejada de suicídio. De qualquer forma, o fato chamou a atenção para um fenômeno grave: o suicídio é hoje uma das principais causas de morte entre jovens no mundo e, no Brasil, a situação não é diferente.

Não deve ser fácil ser filha adolescente de alguém famoso, muitos menos de Michael Jackson e, pior ainda, perder o pai na situação em que o cantor morreu. A proximidade do aniversário da morte, o longo processo que correu na Justiça americana para apurar as circunstâncias da tragédia (em que Paris teve de depor), as complexas questões familiares pela guarda dos filhos e pela herança e dívidas de Jackson, tudo isso não deve ser de simples processamento emocional para uma jovem de 15 anos. Como na maior parte das tentativas de suicídio, sintomas depressivos podem estar presentes e, sua detecção precoce, bem como acompanhamento e tratamento, podem reduzir em até 90% as tentativas. Muitas vezes, os episódios de autoagressão são uma forma de o jovem chamar atenção e pedir ajuda. É importante que pais, educadores e profissionais de saúde estejam atentos.

Uma série de estudos publicados no jornal médico Lancet, em 2012, mostrou que o suicídio é a primeira causa de morte entre garotas de 15 a 19 anos no mundo. No Brasil, ele seria a terceira causa de morte entre jovens, atrás de homicídios e acidentes de trânsito. Especialistas estimam que 20 a 30 pessoas tirem a própria vida todos os dias no País. As tentativas poderiam atingir números até 20 vezes maiores.

Outro ponto que gostaria de lembrar foi o protesto dos alunos de saia em um colégio tradicional em São Paulo, pelo que consideraram uma posição preconceituosa de professores e direção ao não permitir que um aluno assistisse de saia a uma aula em um dia de comemoração de festa junina. Por que todo mundo pode se vestir e se pintar de caipira na festa e um garoto não pode usar saia? Por que encarar como desrespeito e esculacho uma simples manifestação indumentária de um jovem? Conheço bem o colégio (onde até mesmo já fiz parte de um interessante trabalho de prevenção) e estranhei a falta de espaço para esse exercício de liberdade, que não parece ferir os pressupostos básicos da excelência em educação da escola. Desde quando um par de calças ou uma saia fazem tanta diferença?

E, para terminar, a tristeza e indignação pela violência contra jovens e colegas jornalistas nas ruas de São Paulo. É claro que não dá para apoiar a destruição de bens públicos por uma minoria diluída na massa, mas daí a ver a truculência com que foram tratados manifestantes e trabalhadores é uma longa distância. No calor do momento, no meio da multidão, é difícil arrefecer os ânimos de ambos os lados, mas é intolerável que aconteçam episódios de violência premeditada, por parte de quem deve cuidar e proteger a população. Mais impensável ainda é que, enquanto o circo pegava fogo, nossos governantes vendiam em Paris uma cidade que não existe. Alguém não deveria ter subido em um avião e voltado para cá o mais rápido possível? Sob o olhar atento e próximo do chefe, as manifestações poderiam ter transcorrido de maneira bem mais tranquila!

* Jairo Bouer é psiquiatra e trabalha em saúde de prevenção

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