Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Venezuelanos chegam a São Paulo com quase nada e apreensivos

Maior grupo foi para centro de acolhida; casal de refugiados ajuda conterrâneos e emociona

Fabiana Cambricoli, Felipe Resk e Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Transportados por ônibus do Exército e escoltados por homens da PM e da Guarda Civil Metropolitana, os primeiros venezuelanos acolhidos na capital chegaram ontem à tarde aos abrigos que serão seus lares nos próximos meses. O grupo de 104 imigrantes viajou de Boa Vista à cidade de São Paulo em um voo da Força Aérea Brasileira (FAB) que pousou às 13h30 na Base Aérea de Guarulhos.

Após as cinco horas de voo, os imigrantes ainda tiveram de esperar mais duas horas para embarcar nos ônibus que os levariam a três abrigos da cidade, por causa de um atraso na retirada das bagagens. A chegada aos espaços ocorreu por volta das 16h30. O maior grupo, de 74 estrangeiros, todos solteiros, foi para o Centro de Acolhida Temporária São Mateus, administrado pela Prefeitura. Já os estrangeiros que vieram em famílias foram encaminhados à Casa do Migrante, espaço ligado à Missão Paz, da Igreja Católica, e à Casa de Passagem Terra Nova, do governo estadual.

Blindados pelas forças de segurança e por membros da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), os imigrantes não quiseram falar com a imprensa, mas, segundo agentes que tiveram contato com eles, demonstravam um misto de medo e esperança ao chegar à maior cidade brasileira.

No CTA São Mateus, três viaturas da GCM faziam a segurança. O receio era que o tumulto registrado na noite anterior, quando moradores de rua atiraram pedras e feriram um GCM ao ter de deixar o espaço, se repetisse (mais informações ao lado). Antes da chegada dos venezuelanos, os guardas apreenderam em flagrante dois adolescentes por tráfico de drogas. 

Crianças. Entre os refugiados, a situação mais vulnerável era a das famílias que chegaram com bebês pequenos - um deles, com 3 semanas de vida. Na bagagem, traziam apenas roupas e pertences de aparência antiga, evidenciando a situação de escassez do país de origem.

Segundo o padre Paolo Parise, diretor da Missão Paz, um dos momentos mais emocionantes na recepção dos imigrantes foi quando o grupo encontrou um casal de conterrâneos que já vive há mais tempo no Brasil. “Quando eles falaram que já estavam empregados, morando em um apartamento alugado, os recém-chegados ficaram com um olhar de esperança”, conta o padre.

O casal citado decidiu se mudar para o Brasil após um deles, o jornalista Carlos Daniel Barroso, de 34 anos, ser sequestrado e espancado por questões políticas. Ele se mudou em 2016. A mulher dele, a professora Marifer Vargas, de 36 anos, veio no ano seguinte. “Chegou um momento que era muito difícil ter que decidir quem da sua família iria comer”, relata ela.

Outro grupo de 82 venezuelanos chegará hoje. Ao todo, a cidade deve receber 300 imigrantes. “Vamos organizar as ofertas de emprego”, diz o secretário de Assistência Social, Filipe Sabará.

'Despejados', moradores de rua se revoltam

A chegada dos venezuelanos em São Paulo causou revolta entre moradores de rua que usavam o Centro Temporário de Acolhimento (CTA) de São Mateus, na zona leste, e tiveram de deixar o albergue para dar lugar aos refugiados. Barrado do equipamento, um grupo com cerca de dez pessoas montou uma “maloca” em uma praça a 350 metros de distância, onde dormiu sobre papelões.

A saída dos moradores de rua do albergue, anteontem, foi marcada por tumulto. Revoltados, alguns ex-abrigados no CTA atiraram pedras – e uma delas acertou o joelho direito do guarda-civil Francisco Moisés do Nascimento, de 35 anos. O caso aconteceu por volta das 19h40. “Eles avisaram ontem que a gente tinha de sair”, afirmou Maurício Aquino, de 19 anos, um dos que foi se abrigar embaixo do coreto da Praça Felisberto Fernandes da Silva. “Pegou a gente de surpresa”, concordou Jefferson Silva, de 22.

No portão do CTA, ontem, era possível ler um aviso. “A SMADS (Secretaria de Assistência Social), em compromisso com a ACNUR (...) prioriza o bem-estar dos venezuelanos que estão passando por um processo de adaptação”, dizia.

“Eles ofereceram para a gente ir para (o CTA de) Aricanduva e Guaianases, mas não é assim”, disse Fabio Toledo, de 43. “Eu estava bem, tinha um lugar fixo e, de repente, tenho de mudar. Isso desanima.”

O secretário Filipe Sabará negou que a decisão tenha sido repentina. “Conversamos com eles desde o fim de semana passado”, disse. Segundo o titular da pasta, a “maloca” é antiga. “Eles já permaneciam na praça anteriormente. Foi até um dos motivos para fazermos o CTA.”

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