Vende-se terreno público

Enquanto outras cidades se consolidam como lugares democráticos, a capital paulista insiste em políticas públicas absurdas

Marcio Kogan e Gabriel Kogan, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2011 | 00h00

Enquanto cidades como Bogotá, Medellín, Paris e até mesmo Rio dão passos importantes para se consolidar como lugares justos e democráticos, São Paulo insiste em políticas públicas absurdas, sem respaldo urbanístico. A venda para o setor privado de um quarteirão inteiro no Itaim-Bibi com vários equipamentos públicos, aprovada pela Câmara Municipal, é um exemplo contundente da falta de planejamento urbano dos governos municipais paulistanos que contribuem para acentuar o caos urbano.

Se, por um lado, é óbvio e demagógico defender a criação de novas creches, a expansão dos serviços públicos não pode ser feita à custa do saqueio das propriedades do Estado, sobretudo em áreas centrais. São Paulo tem enorme demanda de equipamentos em bairros com alta disponibilidade de trabalho. São esses bairros, que já dispõem de boa infraestrutura e acessibilidade, que devem ser adensados não apenas com habitações sociais, mas, sobretudo, com equipamentos públicos.

A venda desses terrenos pela Prefeitura está na contramão do bom senso praticado em todo o mundo. As cidades colombianas implementaram recentemente um maciço sistema de equipamentos públicos em todas as partes da cidade, projetados por meio de pequenos concursos de arquitetura. Essa atuação municipal, com a ajuda de bons arquitetos e urbanistas, promoveu uma verdadeira revolução. Em Paris, por causa da crise econômica, o governo aproveitou a queda no valor da terra para comprar terrenos em áreas centrais. Nesses espaços estão sendo construídos equipamentos e habitação pública.

Por aqui, as administrações não estão nem um pouco preocupadas com a qualidade das cidades. A população pobre é expulsa do centro por uma política higienista e a cidade caminha para total deterioração. Restam novamente apenas os órgãos de patrimônio histórico - usados, diga-se, indevidamente para controlar a especulação imobiliária e a atuação despreparada dos governos - para evitar o desastre que seria a venda do quarteirão no Itaim-Bibi.

Parece que querem extinguir esse quarteirão - com creche, biblioteca, teatro, Emei, UBS, Apae, Escola Estadual, Caps e uma bela área verde, que cumprem impecavelmente suas funções - para não contaminar as tralhas que estão por vir, como o fantástico túnel de 2,3 km, aprovado conjuntamente pela Câmara e que deve resolver o trânsito da região por seis meses. Mais uma obra de visão.

Uma mudança radical nos paradigmas urbanísticos de São Paulo é urgente.

SÃO ARQUITETOS E URBANISTAS

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