'Vai ser o caos nos Jogos Paraolímpicos'

Para escritor e cadeirante, repercussão de seu apelo no Twitter para sair de voo é retrato do 'inferno que é andar de avião no Brasil'

Entrevista com

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2012 | 03h08

No domingo, o escritor e colunista do Estado Marcelo Rubens Paiva, de 53 anos, cadeirante, pediu ajuda no Twitter para desembarcar de um voo em São Paulo: "A TAM me esqueceu dentro de um avião. Voo 3971. Em Congonhas. Alguém pode ligar e pedir ajuda? Help!" Segundo o escritor, ele chegou às 18h20 e foi deixado por pelo menos 40 minutos na aeronave.

Segundo a TAM, a espera foi de 25 minutos e ele esteve acompanhado o tempo inteiro - o que o escritor nega. Outra justificativa da companhia seria a solicitação de um ambulift, elevador que ajuda na retirada da cadeira de rodas, que estaria sendo utilizado na hora do desembarque do voo 3971.

A TAM afirmou que o atendimento demorou porque um ambulift teria sido solicitado, mesmo o avião estando no finger (ponte de desembarque).

Não solicitei nenhum ambulift, não sabia nem que poderia fazer esse tipo de solicitação. Ainda mais nesse voo, em que eu nem precisaria (poderia sair apenas com o auxílio da tripulação). Assim que a aeronave pousou, esperei as pessoas desembarcarem, estava distraído, lendo um livro. Vi o pessoal da limpeza entrar, a empresa de catering... De repente, vi a aeromoça fazer a mochila dela e sair. Foi quando me dei conta de que estava sozinho e comecei a tirar uma onda no Twitter. Só saí quando a equipe do próximo voo chegou.

Já passou por essa situação?

Já me aconteceu de tudo. Já perderam minha cadeira de rodas motorizada, me esqueceram dentro de uma van... Um dia, fiquei no meio da pista e o avião decolou sem mim - na época, porém, não tinha Twitter. Na semana passada, no Recife, um funcionário me derrubou no chão... Já estou acostumado, viajo há 30 anos e sou cadeirante há 32. A TAM é, inclusive, uma das companhias melhorzinhas. Segundo a companhia, chegaram três cadeirantes na mesma hora, achei engraçado.

Você esperava a repercussão que a história teve?

Não mesmo. Mas quando as pessoas veem uma notícia como essa, elas se solidarizam. Essa é uma indústria que não para de crescer, mas não oferece uma infraestrutura para compensar. Sei que é complicado lidar com cadeirantes, que é uma logística difícil, não vou fazer nenhum escândalo. Eu só brinquei com meus seguidores e acho que eles (a TAM) me devem desculpas, só isso.

O que significa essa reação?

Mostra apenas que as pessoas estão cansadas do inferno que andar de avião se tornou no Brasil. É um retrato da impaciência de todos. Os bilhetes estão cada vez mais baratos, mas o serviço não oferece qualidade para que os passageiros cheguem em segurança em casa.

Mas houve melhora no tratamento a deficientes físicos nos últimos anos?

Antigamente, o aeroporto era responsável pelo transporte das pessoas com deficiência. Na minha opinião, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil, que criou regra responsabilizando as companhias nesse caso) lavou as mãos. Quem nos ajuda não é uma equipe especializada, é quem estiver à disposição. A parte boa disso é que o atendimento é mais rápido. Mas, por outro lado, eu preferiria que fossem pessoas treinadas, com luvas, que sabem segurar um cadeirante da forma correta.

O que acha que pode ocorrer, por exemplo, na Paraolimpíada?

Vai ser o caos. A Paraolimpíada vai ser no Rio, onde o táxi para deficiente não tem lugar demarcado para estacionar. De modo geral, os aeroportos estão bem, têm vagas especiais, elevadores. Fico imaginando quando chegar um avião lotado de americanos em cadeiras de rodas. Vai ser engraçado.

O bom humor é a melhor maneira de lidar com o caso?

O que mais eu poderia fazer? Brinquei que roubaria o avião. Alguns amigos me falaram que eu deveria ter acendido um cigarro. Tenho certeza de que, se eu ainda fosse fumante, eles chegariam rapidinho para me buscar.

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