Vaga em faculdade fora exige voluntariado

Escolas do ensino médio colocam ações cooperativas no currículo como diferencial

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2013 | 02h12

Não basta mais garantir que os alunos gabaritem português, história e matemática e sejam aprovados no curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Para atender à demanda de seus estudantes, escolas particulares de ensino médio inseriram projetos de voluntariado em seus currículos.

E não é apenas uma questão de bondade. É porque tem crescido o número de interessados em cursar uma universidade fora do País. E, no processo seletivo dessas instituições, a forma como o jovem atua na sociedade vale tanto quanto dominar o conteúdo. "A escola precisa ajudar o jovem na construção de seu itinerário de formação. E, se há um interesse novo dos alunos, cabe a ela criar situações que os ajudem a viabilizar esse projeto", explica Marcelo Feitosa, coordenador pedagógico do ensino médio do Colégio Magister, na zona sul de São Paulo.

Por lá, o currículo foi formatado pensando nesses possíveis itinerários e, portanto, contempla a participação dos estudantes em trabalhos sociais, atividades pelas quais, até mesmo, recebem certificação. Para que a escola identifique diferentes aspirações, todo início de ano os alunos do ensino médio respondem a um questionário em que dizem quais idiomas dominam, por quais áreas se interessam, engajamento social, etc.

Os que querem uma graduação no exterior são avisados: participar dos projetos sociais é fundamental. Com 17 anos, Eric Otofuji, por exemplo, planeja estudar Economia em Harvard. Está começando a reunir documentos e sabe que o certificado da viagem que fez com os colegas de sala à cidade de São Raimundo Nonato (PI), terá de estar no dossiê enviado aos EUA. No Piauí, eles conduziram um projeto de conscientização dos moradores sobre a importância do parque da Serra da Capivara. "Foi importantíssimo, não só porque os ajudamos, mas porque pudemos saber mais sobre o nosso País. Um aprendizado mútuo", resume.

Sob medida. A fala de Eric traduz outra faceta da atuação social valorizada pelas instituições estrangeiras: o foco deve ser os projetos que visam à cooperação e não ao assistencialismo, que é a forma mais comum de voluntariado, como doação de roupas e arrecadação de alimentos. "As escolas internacionais dão ênfase a projetos comunitários com atitude empreendedora sustentável, não assistencialista", diz Alessandra Conway, orientadora educacional do ensino médio do Colégio Viva.

Ela relata que o interesse de fazer uma graduação no exterior é recente entre os alunos do colégio, e diz que, assim que expressam essa vontade, a escola os orienta a se preparar para serem avaliados em habilidades como criatividade e postura colaborativa. À disposição (e por obrigação, já que faz parte do conteúdo pedagógico), estão atividades como o mapeamento dos espaços de arte no bairro, cujo resultado vai compor um portal mundial sobre espaços urbanos artísticos.

Mais que prova. De malas prontas para Boston, nos EUA, onde passará sete semanas, Maria Julia Viotti, de 16 anos, fez do processo seletivo para o curso de verão de Harvard uma espécie de degustação para o que terá de cumprir caso decida, no ano que vem, tentar vaga por lá.

Além do bom desempenho acadêmico, a seleção para ganhar a bolsa de estudos abrangeu critérios como as atividades esportivas às quais se dedica - ela pratica hipismo desde os 10 anos - e seu trabalho social em uma fundação que ajuda mulheres e crianças em situação de risco. "Fiz tudo desinteressadamente, mas fico feliz de saber que sou avaliada por mais do que meus acertos na prova."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.