Interior sofre com falta de água
Interior sofre com falta de água

Uso do 3º volume morto do Cantareira vai exigir bombeamento de água para interior

Medida em estudo tira 41 bi de litros de água da Represa Atibainha

FABIO LEITE e DIEGO ZANCHETTA , O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2015 | 02h04

O uso de uma terceira cota do volume morto do Sistema Cantareira, que está sendo preparado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) para tentar evitar o colapso do abastecimento na Grande São Paulo, vai obrigar a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) a bombear água também para o interior paulista, algo nunca antes imaginado por gestores e especialistas em recursos hídricos. A medida ainda precisará de aval dos órgãos reguladores.

Com a retirada de até 41 bilhões de litros prevista para a Represa Atibainha, em Nazaré Paulista, o nível do reservatório ficará abaixo da soleira do túnel por onde a água é liberada para o Rio Atibaia, responsável pelo abastecimento de 95% da população de Campinas, a 90 quilômetros da capital. Desta forma, a água não sairá mais do reservatório por gravidade, apenas por bombeamento, a exemplo do que a Sabesp já faz desde maio no sistema para abastecer a Grande São Paulo.

Chamado de descarga de fundo, esse túnel tem 1 metro de largura por 1,10 de altura, e fica a 17 metros de profundidade em relação à borda da represa, o equivalente a um prédio de seis andares. Segundo o professor de hidrologia Antonio Carlos Zuffo, da Unicamp, esse terceiro volume morto "é o fundo do poço" do reservatório. Apesar disso, explica, a água deve ter qualidade semelhante à que já é retirada hoje da segunda cota da reserva profunda.

"Aparentemente, essa água está parada lá há anos. Mas, como o nível da represa está baixo há muito tempo, ela vem recebendo mais luz e oxigênio do que recebia antes, além de sofrer uma circulação vertical. Por causa dessa mudança toda na dinâmica do reservatório, essa água deve ter qualidade semelhante à que estão captando hoje", afirma Zuffo.

Conforme o Estado mostrou em maio do ano passado, 76% da água do Cantareira que é considerada volume morto para a Sabesp, porque fica abaixo do nível mínimo das comportas por onde a companhia faz a transferência para a Grande São Paulo, já é fornecida para a Bacia dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), na região de Campinas. Com o agravamento da seca no manancial neste ano e ainda muito dependente do sistema, a companhia terá de captar uma água até então intocável.

"A partir do momento em que começarem a usar essa terceira cota, nosso túnel vai ficar sem água. Não tem alternativa a não ser bombear. Caso contrário, o Rio Atibaia seca", afirma o engenheiro Marco Antonio dos Santos, diretor técnico da empresa de saneamento de Campinas, a Sanasa. Segundo a Sabesp, o nível de retirada da terceira reserva na Represa Atibainha ainda está em estudo, mas o bombeamento de água para o PCJ está garantido, e o Rio Atibaia "não sofrerá consequências".

Até a última sexta-feira, restavam em todo o sistema 60 bilhões de litros da segunda cota do volume morto, que começou a ser captada em outubro. De acordo com o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, se a estiagem no manancial persistir, essa reserva pode se esgotar em março.

Por isso, a empresa planeja reduzir a retirada de água do Cantareira para São Paulo de 16 mil litros por segundo para 13 mil litros por segundo, principalmente intensificando a redução da pressão da água na rede e com a multa para quem elevar o consumo. Segundo o professor Zuffo, ainda assim, se a seca no manancial nos próximos meses repetir o cenário de 2014, o nível dos reservatórios continuará caindo, e a terceira cota do volume morto pode se esgotar em maio. "Se isso acontecer, não haverá água para ser tratada e nós teremos de usar água bruta de outros reservatórios, porque não há estação de tratamento com capacidade suficiente para suprir o Cantareira."

Atibaia. De margens largas e dimensões que lembram um rio amazônico durante as cheias, o Atibaia teve sua paisagem desfigurada pela estiagem dos últimos dois anos. Com profundidade que chega a 4,2 metros no período de chuvas, o rio tinha, na última quarta-feira, 6 centímetros na região entre Campinas e Pedreira.

Com chuvas abaixo da média nos últimos 50 dias, o Rio Atibaia segue com águas paradas e pedras à vista em todo seu percurso até Americana. Ao atravessar uma das regiões mais desenvolvidas do País, ainda recebe toneladas diárias de esgoto doméstico e tem sua água desviada por criadores de gado, que transformaram a área de várzea em pasto, e por condomínios de luxo, que criaram lagos artificiais em seus terrenos.

O rio chega perto de sua foz praticamente morto, exalando um cheiro insuportável e com cor de tom esverdeado. Em Americana, o Atibaia encontra o Rio Jaguari e forma o Rio Piracicaba - que já nasce como se fosse um córrego de esgoto. "O rio já tem pouca água porque o pessoal de São Paulo desvia tudo lá no Cantareira. Agora que não tem chuva, vamos ficar sem rio aqui. Vai virar deserto", lamenta o agricultor Renato Graciano, de 42 anos, em Paulínia.

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