Uma noite no esquenta dos vips, a R$ 1.100

Pré-balada com jantar e limusine reúne de endinheirados a joviais senhoras do interior

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2010 | 00h00

Privilegiados. Com som no último volume, grupo se diverte em limusine, no trajeto de 20 minutos entre a Daslu e o festival

A fila para embarcar na limusine está grande, mas os baladeiros que pagaram R$ 1,1 mil para esperar o começo do festival de música eletrônica no Terraço Daslu, com vista para o xexelento Rio Pinheiros, parecem se divertir. "Tira uma foto minha, véio!", pede o médico Eugênio Ferreira, de 35 anos, a um dos cinco amigos que o acompanham. O esquenta vip, no sábado à noite, dá direito a jantar, bebida e traslado para a balada.

"A vodca podia ser melhor. Smirnoff você compra no mercado por R$ 20. Eu esperava que servissem uma Eristoff Black, uma Roberto Cavalli", diz o mineiro Brenno Saliba, de 22 anos.

Por ser estudante, Saliba pagou meia, R$ 550. Mas, ao que parece, não faz diferença. O mais rico de um grupo de 15 pessoas que vieram de Belo Horizonte, o estudante generosamente convidou todos. "Gastei uns 20 mil", contabiliza, sem rodeios.

Um dos amigos, o administrador Daniel Vopore, de 21 anos, explica que "o pai desse garoto (Saliba) tem U$ 50 milhões". "Ele é develop, constrói os prédios mais luxuosos de Miami. Você sabe o que é develop, né? "

Saliba ouve o comentário sem se preocupar em desmenti-lo. Ao contrário, tira do bolso um leque de convites e levanta para a foto. "O Brenno adora levar os amigos pra Miami. Vamos com a gente!", convida Vopore, de óculos escuros às 22h.

Ônibus. A assessora de imprensa do festival explica que é o segundo ano em que se organiza o esquenta. Venderam os mil ingressos disponíveis. O evento reuniu DJs, bailarinos, acrobatas e mais de 40 mil pessoas no Anhembi. O camarote dos dasluzetes é o Diamond.

Embora a limusine seja a cereja do bolo, muitos vips estão indo de ônibus. Para glamourizar o embarque desses, e não parecer tão discrepante a diferença para a limusine, o traslado até os ônibus, que ficam em fileira do lado de fora da Daslu, é feito em carrinhos tipo de golfe.

Vocês pagaram a mesma coisa? "Sim", diz o empresário Olacyr de Moraes, embarcando em um dos carrinhos, com três mulheres grandes. Uma delas diz que eles vão de ônibus porque chegaram atrasados.

Vip tem hora pra chegar? "Ah, sei lá...", diz ela.

Ninguém da organização sabe informar por que alguém que pagou os mesmos R$ 1,1 mil vai de ônibus. Dizem apenas que o interior do veículo foi adaptado para ficar idêntico a uma limusine. "Já tivemos algumas reclamações", diz um dos organizadores de vips, que orienta o embarque com um radinho na mão. A julgar pela frequência no Terraço Daslu, a maior parte do público veio do interior de São Paulo ou de outros estados.

O estudante Harlan Gadelha, de 20 anos, posa com uma das modelos contratadas para enfeitar a festa. "Meus amigos de Recife não vão acreditar. Hahaha." Harlan diz que é filho de um ex-deputado homônimo.

Cirque du Soleil. Ali perto estão as amigas Inah Cadieri, de 64 anos, Eliana Berdugo, de 60, e Ana Maria Celeste, de 65. "Pensamos que o jantar era no Buddah Bar, não em pé", diz Inah, que é de São Sebastião do Paraíso (400 km de São Paulo) e se diz responsável pela vinda das outras duas. Ao som muito alto de house music, Ana Maria conta que o neto dela, de 23, "ama a avó". "Eu pensava que seria algo tipo Cirque du Soleil."

A reportagem embarca na limusine capitaneada pelo médico do primeiro parágrafo. Um dos passageiros, o português Felipe Caldas, de 32 anos, diz que nunca andou em uma. "Lisboa é uma cidade antiga, de ruas muito estreitas, não seria fácil manobrar um carro tão comprido. E depois (baixando o tom de voz) em Portugal limusine é coisa de novo rico."

É mesmo? Não diga.

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