Uma cidade cheia de medo

Quando chove barbaridade como ontem no Rio de Janeiro, o carioca se dá conta de que moramos todos no morro. Quem não teme rolar lá de cima, morre de medo das águas que, de um lado, descem em enxurrada pelas encostas e, de outro, sobem com a maré alta dos rios, das lagoas e do mar. A natureza de cartão postal vira cenário e protagonista de filme de terror. O aguaceiro que virou a noite de segunda e terça-feira ficará para sempre no calendário de tristes efemérides da cidade. Junta-se às catástrofes de 1966, 1988 e 1996, datas que todo carioca já meio rodado mantém tão vivas na cabeça quanto as conquistas da seleção brasileira em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 - com o perdão da comparação de emoções tão inversamente intensas quanto o pânico e a euforia.

Crônica: Alfredo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2010 | 00h00

Eu pensava nisso enquanto tentava desobstruir na manhã de ontem os caminhos das águas que descem do morro atrás da minha casa. Estava paramentado de capa, galocha, vassoura, pá e saco de 100 litros de lixo, sujo de lama e cheio de medo. Apavorado! Aprendi muito cedo que o fim do mundo no Rio será embaixo de muita chuva. Em 1966, aos 11 anos, vi de perto pela primeira vez os estragos de uma catástrofe: 250 mortos, 50 mil desabrigados. Meu pai levou a família para passear à beira dos escombros após três dias e três noites de dilúvio. Desabaram pontes, casas, muros, encostas... Tombaram barracos no morro, carros no rio, árvores e postes nas ruas, gente na vala, esgoto no mar, barcos no porto, raios que os partam.

A TV Globo, sob a batuta de Walter Clark, fez sua prova de fogo em cobertura jornalística e conquistou a simpatia da cidade com ações de solidariedade. Estávamos no fundo do poço, fim do caminho, no rosto desgosto, todo mundo um pouco sozinho. Parecida só vi outra em 1988: 289 mortos, 734 feridos, 18.560 desabrigados. Me lembro que chorei baldes quando as águas baixaram e começaram a desenterrar os pobres no Jornal Nacional. Naquela mesma noite, doei todos os meus agasalhos e cobertas aos sobreviventes desabrigados. Fiquei mal! Durante algum tempo andei por aí com medo de trovão.

Eu e todo prefeito da cidade. Nem faz tanto tempo assim, Marcello Alencar governava olhando para cima. Pra ver se estava, como dizem os previsores, "sujeito a pancadas". O próprio César Maia experimentou esta sensação em sua encarnação no executivo. Morreram 56 no pé d"água de 1996, mas, de lá pra cá, o Rio ficou com a impressão de que os temporais de grande magnitude haviam se mudado definitivamente para São Paulo. As chuvas foram ficando mais esparsas e de menor intensidade e, segundo o resumo histórico do Corpo de Bombeiros, houve uma enchente em 2001, outra em 2003, nenhuma delas chegando à marca assustadora dos 50 mortos!

No verão de 2010, o carioca chegou a sentir falta de um temporal refrescante nos fins de tarde. Não houve chuvas de verão, águas de março, estava tudo guardado para a inundação dos últimos dias. Choveu 288 milímetros em 24 horas: água suficiente para encher 300 mil piscinas olímpicas, o que seria também, mais ou menos, a cota pluviométrica prevista pela meteorologia para todo o mês de abril no Rio. Os jornais de hoje devem estar cheios de comparações do gênero, mas nenhum indicador é tão representativo da catástrofe quanto o medo que todo mundo sente embaixo de tanta água. Voltou a chover forte agora. Até quando?!

É COLUNISTA DE HUMOR DO ESTADO E, EXCEPCIONALMENTE, DEIXA DE ESCREVER COMO TUTTY VASQUEZ

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