Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Uma bike é roubada em SP a cada meia hora

Na capital, casos se concentram em bairros centrais; medo faz ciclista mudar rotina

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2017 | 19h50

SÃO PAULO - A cada meia hora, um boletim de ocorrência é registrado por furto ou roubo de bicicleta no Estado de São Paulo. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que entre janeiro e setembro de 2016 foram levadas, em média, 46 bikes por dia. Nos nove meses, foram 12.710 ocorrências, ante 11.954 do mesmo período do ano anterior – um aumento de 6,3%.

Pela primeira vez, o Estado fez um levantamento para mapear os crimes relativos ao modal. Só na capital – primeiro lugar no ranking das cidades –, houve 1.351 furtos e roubos de bicicletas entre janeiro e setembro. A maioria dos casos se concentra nas áreas central e oeste. Mas o total ainda pode ser maior, pela subnotificação. 

A designer gráfica Maria Julia Brito, de 26 anos, por exemplo, foi roubada no Minhocão e não registrou boletim de ocorrência. Eram 22 horas de domingo e a via estava fechada para carros, quando a jovem e um amigo sentaram no Elevado, perto da Estação de Metrô Marechal Deodoro. As bicicletas dos dois ficaram encostadas na mureta.

Um grupo de pessoas caminhava na direção da dupla. Segundo ela, uma criança pegou a bicicleta do amigo dela e levou embora. O jovem correu e conseguiu reaver a bike de volta. Nesse meio tempo, os outros do grupo a abordaram e, com uma garrafa de cerveja na mão, pegaram a bicicleta dela. “Nos dias seguintes, alguns colegas ciclistas viram uns meninos rodando com a minha bicicleta, que era bem chamativa: roxa com aro azul”, conta. 

Maria até tentou fazer boletim de ocorrência eletronicamente, mas diz que não conseguiu. Foi a uma delegacia no dia seguinte e relata ter sido informada que era para voltar em horário comercial. Acabou desistindo: “Não conseguiria recuperar a bicicleta. Pensei: ‘nem vale a pena fazer boletim’.” Ela usava a bike para trabalhar e passear. Desde o roubo, não comprou uma bike nova e parou de usar por um tempo. “Não tenho mais vontade de sair para pedalar à noite, que é horário em que tenho disponibilidade”,diz.

O vereador Police Neto (PSD), que no fim de novembro teve a terceira bicicleta furtada em quatro anos, dá a dica: não demore mais do que 20 dias para voltar a andar de bike, nem que seja emprestada. “Continuar pedalando para não perder o entusiasmo”, afirma. 

Police Neto teve bikes furtadas no Largo São Bento em 2012, na Avenida Paulista em 2014 e na Praça da Sé. Ele defende a criação de um cadastro municipal de bicicletas roubadas – que depois pode ser ampliado para o País – nos moldes de um site feito por ciclistas, em 2001.

“Precisamos de um sistema eletrônico com todas as informações possíveis da bicicleta. Esse cadastro poderia contribuir com a inteligência policial para desbaratar quadrilhas.” 

Resgate. Tal como Maria Julia e Police Neto, a universitária Giuliana Pompeu, de 22 anos, também teve a bicicleta roubada no centro. Ela, que é cicloativista, foi abordada por dois meninos que andavam em uma mesma bike. “Só percebi que era um assalto quando fui empurrada. Eles pegaram a minha bicicleta e saíram, cada qual em uma. Fiquei bem nervosa”, diz.

A jovem registrou boletim de ocorrência, mas também foi um pouco além: imprimiu a foto da bike, mostrou a todos os policiais que rondam a região e deixou o contato com os PMs. 

“Um dia, uma dupla de policiais a quem tinha mostrado a imagem da minha bike, que é chamativa, reconheceu a bicicleta com dois meninos e entrou em contato. Era a minha”, conta. Agora, Giuliana mudou a rotina: não anda mais depois das 23 horas e não deixa a bike estacionada na rua. 

Um dos modos de rastrear a bicicleta é pelo número do chassi, que desde setembro ganhou um campo nos boletins de ocorrência e passa a ser informado no momento do registro. 

A SSP criou um grupo de trabalho para discutir o roubo de bikes, que reúne representantes da pasta, das polícias e outros cicloativistas, entre eles Daniel Guth, da Ciclocidade. “Nunca tínhamos conseguido diálogo com o gabinete da secretaria. Com as informações que estão sendo levantadas pela pasta, podemos traçar planos de ação.” 

A secretaria também criou, nos BOs, campos para preenchimento para detalhar as características da bike e ajudar a polícia a identificar o proprietário da bike quando ela for recuperada. De janeiro a outubro, foram recuperadas cerca de 500 bicicletas apenas na região central e no bairro de Pinheiros. O registro pode ser feito tanto nas delegacias quanto pela internet.

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