UFRJ leva ''quebrada'' para a sala de aula

UFRJ leva ''quebrada'' para a sala de aula

Projeto de extensão aproxima lideranças de comunidades ao ambiente acadêmico em debates culturais

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

04 Abril 2010 | 00h00

Cerca de cem pessoas lotaram o pequeno auditório no câmpus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na zona sul, para participar da aula inaugural da Universidade das Quebradas, na quinta-feira. A professora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda, que coordena a iniciativa com a psicanalista Numa Ciro, disse que o objetivo é "experimentar uma troca" com artistas da periferia que não tiveram acesso à educação formal.

"Isso aqui não é curso, é um projeto. Não é ensino, é uma parceria. O que a gente está querendo aqui é criar uma comunidade do conhecimento", discursou Heloisa, na aula inaugural.

O compositor Marcelo Yuka foi o convidado para a palestra de abertura, que recebeu o título Estética e Conhecimento nas Quebradas. Yuka falou de improviso por pouco mais de duas horas, para um auditório lotado.

O ex-integrante da banda O Rappa fez uma defesa radical do funk, que definiu como "uma nova forma de unificação da cultura nacional". Para ele, samba e funk passaram "pelo mesmo processo castrador e repressor por parte do Estado".

Segundo Yuka, o funk "ainda não foi cooptado por grandes corporações como Nike e Red Bull, ao contrário do hip hop". "Lembra desse sucesso: "Ah, eu tô maluco?" Tem coisa mais inteligente que isso? E "Sou feia, mas tô na moda" (de Tati Quebra-Barraco)? Eu acho melhor do que "Olha que coisa mais linda/mais cheia de graça" (versos de Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), respeitando o poetinha", disse.

Yuka criticou a política de segurança do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), inclusive o modelo das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) instaladas em favelas a partir de dezembro de 2008. "Pacificar com sangue de pobre? Isso não é paz." Reclamou da "máfia cinematográfica" que, segundo ele, abocanha a maior parte dos recursos distribuídos por meio de renúncia fiscal. "São os filhos dos que são filhos dos que são filhos."

Antes da palestra, Heloisa disse que Yuka representava "o símbolo do que a gente quer fazer aqui". "Vai ser um processo muito penoso, mas vai ser lindo."

Universidade das Quebradas é um projeto de extensão do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ.

Estão previstas aulas quinzenais do dia 22 de abril até dezembro. Entre os próximos temas a serem tratados nos encontros do projeto estão: Arte e filosofia na Antiguidade; Teatro Grego; Música Romântica; Cultura Africana no Brasil e Romance Contemporâneo.

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