DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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Uber se transforma em alvo de ladrões e registra 1 roubo a cada 8 horas em SP

Aumento do número casos acontece depois que aplicativo passou a aceitar pagamentos em dinheiro; maior concentração de crime é na capital e região metropolitana; registros mostram que assaltantes criam perfis falsos para atrair vítimas

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2016 | 20h10

SÃO PAULO - O pagamento em dinheiro para clientes do Uber fez explodir o número de casos de roubo a motoristas do aplicativo no Estado de São Paulo, no segundo semestre deste ano. Praticamente a cada dia, cerca de 3 motoristas do Uber são assaltados no Estado. 

De janeiro a 16 outubro, os motoristas e passageiros do aplicativo já sofreram ao menos 271 roubos. Desses, 50 ocorreram até 29 de julho, data em que o aplicativo passou a aceitar dinheiro como pagamento – média de 7 casos por mês. De 30 de julho a 16 de outubro, a polícia contou 221 crimes – média de 88,4 por mês. São 2,7 casos por dia ou 1 caso a cada 8 horas (aumento de 1.162% em relação à média do período anterior).

A maior concentração dos casos é na capital, mas também há registros em cidades da região metropolitana e até em Campinas. Além dos crimes comuns, com motorista e passageiros reféns de motociclistas em semáforos ou outras emboscadas, uma das estratégias mais usadas pelos bandidos é a de criar um perfil falso no aplicativo e chamar a corrida.

Dentre os roubos, 121 deles ocorreram no local da chamada do motorista – 54,7%. Os motoristas também foram alvo de armadilha por falsos passageiros para serem levados até um ponto e serem roubados e até sequestrados pelos clientes (mais informações nesta página).

Os dados foram tabulados pelo Estado, que solicitou todos os boletins de ocorrência contendo a palavra Uber à Secretaria da Segurança Pública (SSP) e analisou individualmente o histórico somente daqueles que tinham o motorista da empresa como vítima durante o serviço. Os números podem estar subnotificados, já que há motoristas que não registram boletim de ocorrência ou ainda que não detalham o nome da empresa em que trabalhavam ao registrar o documento na delegacia. Também não foram consideradas as estatísticas de furto. 

Como comparação, é possível verificar que o crescimento dos casos envolvendo o Uber é bem maior do que o dos roubos no Estado. De janeiro a julho deste ano, a média mensal de roubos paulista foi de 26.666. Em agosto e em setembro, esse número ficou em 28.041, um aumento de 5,1% em relação à média anterior registrada.

Táxis. O Estado também tentou obter o número de roubos a taxistas, mas secretaria e os sindicatos de taxistas não souberam informar os dados. O presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo (Sinditaxisp), Natalício Bezerra, diz que sentiu um aumento nas reclamações dos taxistas, mas que não existem estatísticas do tipo. “Sabemos que aumentou porque os motoristas comentam. É por causa dessa crise toda no País. O motorista (de táxi) está muito exposto o tempo todo, não se sabe se quem entra é um bandido ou cidadão e a impunidade é muito grande.” 

O motorista e presidente da Associação dos Motoristas Parceiros das Regiões Urbanas do Brasil (Amparu), Nelson Bazolli, diz que já pediu soluções sobre os cadastros falsos de Uber, mas não teve retorno. “A liberação de pagamento em dinheiro foi o gatilho para os bandidos acharem que o motorista parceiro tem dinheiro no carro. E não tem, porque o volume de corridas que eles fazem para pagamento em dinheiro é insignificante, comparado a taxistas, por exemplo. O Uber não dá apoio nenhum, dizem que não são responsáveis”, diz.

Ele conta que já cobrou, por carta e por e-mail, que a empresa criasse um botão de alarme para casos de emergência, como roubos, para que a empresa ficasse ciente dos episódios. “Eles nem deram resposta.” O Uber diz que a segurança é importante para a empresa.

Empresa diz cuidar da segurança

O Uber informou que a segurança é “importante” para a empresa. “Usamos tecnologia para agregar segurança antes, durante e depois de cada viagem.” O Uber não respondeu se mapeia os roubos aos motoristas, quantos condutores têm no Estado, se eles são ressarcidos em caso de roubo ou qual orientação dá aos passageiros vítimas. Por fim, não informou se vai aumentar os filtros para identificar passageiros ou se pretende parar de receber pagamentos em dinheiro. O Uber afirmou que, em pouco menos de um ano, seus clientes cresceram 746% em São Paulo.

Depois de assalto, motorista já pensa em abandonar o serviço

O motorista Claudio (nome fictício), de 41 anos, sofreu um assalto no dia 12 e já pensa em abandonar o aplicativo, após seis meses de serviço e até o financiamento de um carro para trabalhar. Ele tinha acabado de deixar um passageiro no limite de São Paulo com Santo André, no bairro de Utinga, quando recebeu um chamado próximo. Eram 14 horas, a rua era movimentada e ele não viu por que não aceitar o chamado. Quando chegou, foi surpreendido por três adolescentes que, segundo ele, tinham entre 13 e 15 anos.

“Perguntaram se eu era o tio do Uber. Na hora que abaixei o vidro já me dominaram. Todos estavam armados. O maior entrou, me segurou pelo pescoço e imobilizou”, diz. Os bandidos levaram o celular de Claudio, o dinheiro de sua carteira e até a bolsa com água para os passageiros. “Eles me ameaçaram de morte. Fiquei travado, não sabia o que fazer.” Quando os jovens deixaram o carro, ele teve ajuda de moradores da região. “Disseram que ali no bairro estava acontecendo muitos casos do tipo. Parece que alguns bandidos estão indo ali justamente para assaltar.”

Claudio só voltou a trabalhar no dia 16, mas diz que está desanimado. Trocou o horário que fazia, da tarde, para mais cedo – agora entra às 5 horas e sai às 12 horas. Ele reclama que o fato de a empresa obrigar o motorista a aceitar corridas com dinheiro causou insegurança. “A gente nunca sabe quem vai pegar.”

Cadastro. Outro problema seria a falta de controle da empresa com relação a cadastros. “Só precisa de um telefone e e-mail. Já o motorista tem de mandar até atestado de antecedentes criminais”, afirma o motorista. 

O condutor Flávio (que pediu para não ter o sobrenome identificado), de 34 anos, conta que foi assaltado pela segunda vez com o aplicativo na Vila Babilônia, região do Jabaquara, na zona sul de São Paulo. Ele tinha acabado de deixar um passageiro e recebeu um chamado para buscar outro. Ao chegar ao local, já percebeu a emboscada: o suposto cliente nem sequer sabia indicar o nome correto que havia colocado no perfil falso.

“Ele já esperou em um lugar estratégico. Veio um rapaz no cruzamento e mais dois escondidos atrás do carro. Eles mandaram abrir o veículo. Como eu já tinha ouvido falar de outro motorista que tentou fugir de um assalto e atiraram nele, achei melhor obedecer. Destravei o carro e eles entraram. Minutos depois, anunciaram o assalto e me colocaram no banco de trás.” Flávio precisou levar o trio até a Avenida Jornalista Roberto Marinho, onde o deixaram. “Comecei a orar dentro do carro e eles ficaram meio assustados. Mandaram parar e, em seguida, me largaram.”

Bandidos fazem sequestro e armam até emboscadas

Os dados registrados pela polícia mostram que os bandidos já fizeram motoristas como refém e até usaram falsos passageiros para criar emboscadas.

Na madrugada do dia 11 deste mês um motorista que trabalhava em Guarulhos relatou ter sido usado por bandidos para realizar um assalto. O condutor foi acionado pelo aplicativo até a Rua Acre, onde encontrou os dois passageiros em um posto de gasolina. Eles pediram para serem levados a uma farmácia e, em seguida, ao supermercado Extra. Só um dos homens entrou no carro e o outro veio depois, correndo. Como a vítima achou que havia algo de errado, fez menção de ligar o carro, mas era tarde: o passageiro o ameaçou com uma arma.

Só então o motorista percebeu que o homem carregava uma máquina registradora. Ao entrar no carro eles tentaram abri-la no trajeto, mas não conseguiram. Em seguida, determinaram que ele dirigisse até a Avenida Suplicy, onde fugiram. O caso foi registrado no 2.º Distrito Policial de Guarulhos. 

Em outro episódio, do dia 8 de outubro, o motorista da empresa recebeu uma solicitação para buscar uma passageira na Avenida Teresa Cristina, na Vila Monumento, na zona sul paulistana, para levar apenas bagagens. Quando chegou ao local havia uma adolescente, que já deu um nome diferente do identificado no aplicativo.

A menina embarcou, disse que não havia bagagem nenhuma e mudou o destino – de um shopping, que estava no aplicativo, para uma favela. Desconfiado, o motorista começou a fazer uma série de perguntas e, segundo relatou no boletim de ocorrência, a garota ficou nervosa e confessou que foi obrigada a fazer o chamado por um amigo, que assaltaria o motorista. Ele mandou a jovem descer e foi ao 56.º Distrito Policial para registrar o caso.

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