Trânsito caótico, até em shoppings

Se nos feriados as ruas de SP ficam livres de congestionamento, obter vaga em alguns estacionamentos vira um verdadeiro teste de paciência

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2010 | 00h00

O trânsito está parado no cruzamento. Cada um vindo de um lado, o Honda Fit, o Toyota Corolla e o Peugeot 307 fazem um ângulo que os impossibilita seguir em frente ou voltar pra trás. Aparentemente, a culpa é do motorista do Honda, que, no desespero de pegar a vaga, avançou na contramão. O do Peugeot tenta explicar que não dá para entrar por ali, enquanto lá atrás alguém grita um palavrão.

Contando assim, parece que são 18 horas de uma quarta-feira útil na esquina da Rua Marquês de Itu com a Avenida Amaral Gurgel, no centro, ou em qualquer outra confluência de trânsito notoriamente apavorante. Mas são 16 horas de um feriado (por coincidência, quarta-feira) e estamos dentro do estacionamento do Shopping Paulista.

"A gente tem de dar graças a Deus que não está chovendo", diz Valéria Marussa, de 38 anos, relativamente tranquila ao volante de um Eco Sport, com a mãe e a filha. O trio vem da vizinha Vila Mariana, na zona sul da cidade, e Valéria conta que já gastou mais tempo no engarrafamento do shopping do que no caminho de casa até ali. "Estou na segunda volta", diz.

"Fooonnn!", buzina o psicólogo Antônio Fyskators, de 38 anos, prestes a perder a hora. "O prazo do tíquete do estacionamento vai acabar",bufa. Ninguém no meio de todo aquele CO2 tem a expressão de quem está curtindo o dia livre, prestes a ir ao cinema ou comer pipoca e encontrar amigos.

O engarrafamento "indoor" nos feriados que caem no meio da semana é um fenômeno reincidente em alguns shoppings de São Paulo. Enquanto na rua tudo está tranquilo, no estacionamento é o caos. Particularmente no Paulista, no Bourbon e no Center Norte. Se chove, aí é geral.

Ontem o céu estava azul, o que só fez aumentar a discrepância entre o que se via fora e dentro do estacionamento. "Minha mulher gosta tanto de shopping que se sente bem até na fila para entrar", debocha o engenheiro Cláudio Vilas, de 35 anos, ao volante de um Astra à entrada do shopping Bourbon, outro clássico da claustrofobia "indoor" nos feriados.

A mulher de Cláudio, Angélica, de 37, diz que culpa é dos filhos do casal, que "estavam se socando em casa".

"Não dá pra ficar dentro de um apartamento com duas crianças correndo pra baixo e pra cima, enquanto o marido toma uma cervejinha na sala", explica Angélica. Os dois meninos, de 9 e 10 anos, parecem tranquilos no banco de trás, com a perspectiva de comer um lanche feliz.

Além das filas para entrar, gasta-se um tempo enorme procurando vaga e, ao desembarcar, pode ser perigoso para uma criança pequena andar no meio dos carros em movimento.

Proibido estacionar. No Center Norte, um Fiat Uno está estacionado com duas rodas em cima da estreita calçada que circunda um poste; no chão, listras amarelas sinalizam que ali é proibido estacionar (mesmo que com duas rodas).

O jornaleiro Tarcísio Vieira, de 32 anos, para na vaga para idosos. Antes que a mulher saia do carro, ele se apressa em dizer que ela está gávida. "Olha!", diz ele, em tom de defesa, apontando para a barriga da mulher.

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