Tiro no pé!

Uma decisão política ocorrida na última semana em Brasília lembrou-me de uma situação que vivi anos atrás em um trabalho na Amazônia. Na ocasião, havia sido chamado por uma mineradora para discutir prevenção da aids e da gravidez indesejada com adolescentes, filhos dos trabalhadores da empresa, que moravam com suas famílias, cercados por floresta de todos os lados. Lá, meninos e meninas recebiam educação de primeira linha, mas os pais temiam que o tédio e a falta de opções de lazer pudessem levar a comportamentos de risco na vida sexual dentro da vila.

Jairo Bouer,

09 Junho 2013 | 02h02

Mas o perigo, na verdade, morava ao lado. A única estrada asfaltada levava a uma cidade do interior do Pará, destino eventual dos fins de semana da garotada, com cerca de 100 mil habitantes, que apresentava, na época, um dos maiores índices de infecção pelo vírus HIV no País (proporção da população contaminada). No rastro da busca de ouro na região, nos anos 80, muitos garimpeiros e prostitutas, longe de suas famílias e sem suporte de políticas efetivas de saúde e educação, acabaram se contaminando com o vírus. A psicóloga da empresa sugeriu, então, que fizéssemos uma extensão do trabalho com os jovens do município vizinho, muitas vezes órfãos e vindos de famílias pouco estruturadas, enfatizando a importância do cuidado com sua saúde. Estava claro que, quando se trata de sexo, os diversos segmentos da população não são estanques. Prevenção deve ser um trabalho feito com todos e para todos.

Pois bem! Na semana passada, a demissão do diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais em Brasília fez acender uma luz vermelha em uma questão importante: de que forma o Ministério da Saúde consegue resistir às pressões dos setores mais conservadores para trabalhar na prevenção do vírus HIV nas populações consideradas hoje mais vulneráveis.

A demissão foi provocada por uma campanha feita especialmente para as profissionais do sexo, em que um dos cartazes trazia a frase: "Sou feliz sendo prostituta", uma tentativa de combater o preconceito, resgatar a auto-estima e fazer com que elas tenham uma adesão maior ao uso da camisinha em suas relações sexuais.

A campanha gerou movimentação de diversos deputados e representantes da bancada religiosa, que a interpretaram, de um modo muito peculiar, como um estímulo e uma promoção à prostituição. Como em ano pré-eleitoral não se mexe em vespeiro, sacaram o diretor sem perder tempo.

A frase pode até não ter sido a mais feliz, talvez a agência pudesse ter produzido uma alternativa mais criativa, mas o slogan fazia sentido no contexto mais amplo de resgate de cidadania e promoção da saúde em um grupo que, por razões óbvias, está mais exposto a riscos no sexo.

Bom lembrar que longe da vida das garotas de programa de alto padrão, que ganham em poucas horas o que a maioria dos brasileiros não recebe em um mês de serviço, a realidade das profissionais do sexo no País afora é dramática. Expostas a toda sorte de violência, abandono e de falta de cuidados, elas são hoje um dos grupos mais vulneráveis a risco de infecção por aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Pergunta básica: com quem elas se contaminam e quem elas podem vir a infectar? Homens solteiros, casados, de todas as profissões, inclusive políticos e religiosos (basta checar alguns escândalos recentes), que podem levar o HIV para dentro de suas casas e famílias.

Da mesma forma que parece inócuo trabalhar prevenção apenas com os jovens socialmente protegidos da vila, não faz sentido excluir estratégias mais agressivas e diretas de prevenção, justamente nos grupos mais vulneráveis, que vão acabar interagindo sexualmente com os demais segmentos da sociedade.

O mesmo viés conservador que se manifestou agora impediu a distribuição de kits que trabalhavam a homofobia nas escolas e bloqueou, há dois anos, uma campanha na TV para o grupo dos homens jovens que fazem sexo com outros homens, na época avaliado como particularmente vulnerável pelo próprio Ministério da Saúde. Em 2012, quase a metade das novas infecções se deu justamente nesse grupo, que certamente mereceria atenção especial.

Não é verdade que a aids está sob controle. A cada ano, ainda são registrados no País mais de 30 mil casos novos da doença. Os especialistas dizem que vivemos uma epidemia concentrada (em que alguns grupos estão mais expostos). Faz todo o sentido, sem perder de vista a população como um todo, que justamente os mais vulneráveis sejam mais trabalhados.

Mas se a cada gritaria dos segmentos mais conservadores, com medo do impacto eleitoral ou das frágeis alianças político-partidárias estabelecidas, o governo não marcar seu papel de defender políticas mais efetivas de prevenção e não acreditar na expertise de seus profissionais e técnicos mais habilitados, ele pode estar dando um tiro no próprio pé.

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