Rafael Arbex
Rafael Arbex

‘Tinha de ser daquele jeito’, afirma Rambo

Símbolo das blitze em Diadema, ex-PM saiu da prisão, abriu empresa de segurança e diz que quer votar em Bolsonaro

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2017 | 19h00

Otávio Lourenço Gambra, de 59 anos, ainda é perseguido por um apelido que ganhou quando sua imagem apareceu na TV, disparando o que ele chama de “tiro de advertência”, que matou o conferente Mário José Josino. Era 7 de março de 1997. Gambra se tornou o Rambo da Favela Naval. A comunidade em Diadema, na Grande São Paulo, foi o lugar escolhido por ele e seus colegas PMs para fazer uma série de blitze na qual espancavam pessoas que passavam perto de um ponto de venda de drogas. Hoje, ele tem uma empresa de assessoria na área de segurança e afirma querer votar para presidente em Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Como foi para a sua família a prisão em razão da Favela Naval?

Para a família, foi muito penoso ver o pai, o esposo, preso. Mas em toda a minha vida eu soube dividir bem as coisas. O policial na rua, e o pai, o esposo e o filho em casa. Se não conseguisse dividir isso, em um momento de dificuldade a que estamos sujeitos, não teria apoio da família.

Eles perguntaram ao senhor o que aconteceu?

Antes, eu expliquei que ia aparecer algo na TV que era estritamente um serviço policial militar então vigente na época, ao qual nós éramos treinados e direcionados para fazê-lo. Expliquei: ‘Vai aparecer, mas eu sou aquilo que vocês conhecem’. Na rua é o serviço que exige a nossa atuação daquela forma. E, quando apareceu, eles já sabiam a fama do lugar. A Favela Naval era reduto do crime. Infelizmente, naquela época tínhamos de atuar com os meios que tínhamos.

O caso provocou a criação da Lei de Tortura...

Foi a primeira aparição de imagem da atuação da polícia realmente em uma ação noturna. Infelizmente, por mais duras que sejam as imagens, tinha de ser daquele jeito. Infelizmente.

A Justiça o condenou. Quanto tempo o senhor ficou preso?

Oito anos no regime fechado, um ano e quatro meses no semiaberto e sete anos no aberto. Eu me apeguei à religião, a Bíblia me ajudou. Ao sair da cadeia, tive uma sensação tremenda de alívio. Depois passa o êxtase e você tem de decidir o que fazer. Fiquei sem rumo. Carregava um estigma tremendo. Me casei novamente e temos uma pequena empresa de prestação de serviços na área de segurança.

Como é a relação hoje do senhor com a Polícia Militar?

Muito boa, com todos os seus integrantes. Há um respeito mútuo. Quer queira, quer não, criou-se esse mito do Rambo, de estar na favela, atuando. Hoje a PM não pode ser tão atuante, pois estamos em uma situação difícil na Justiça. Não adianta prender que, com essas audiências de custódia, o cara pode fazer o que for que é solto. O cidadão está à mercê de uma criminalidade sem controle. Vivemos em uma democracia que o povo não sabe usar. Há políticos que querem consertar o País, mas estão engessados.

Quem o senhor acha que poderia mudar isso?

Olha não o conheço, mas acredito que seria o Bolsonaro. 

Se o senhor pudesse, o senhor voltava para a PM?

Eu, por mim, aqui dentro do meu coração, eu sou polícia. Tenho a farda que eu carrego no coração. Essa ninguém me tira, mas eu não tenho mais espaço para a polícia de hoje. Porque hoje o policial é treinado e doutrinado de outra forma para agir. Se eu entrasse hoje na PM para trabalhar às 18 horas no patrulhamento, provavelmente às 8 horas já estaria voltando para o presídio. Na minha época, nós éramos 70% loucos e 30% profissionais. Eu era um policial que se entregava. Meu tempo passou.

 

 

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