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Time de várzea domina clube de 'rolê'

Diego Zanchetta - O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2014 | 02h 14

Crianças e adolescentes têm de pagar até R$ 86 para usar clubes da Prefeitura; há 30 anos, espaços abrigam bares e festas privadas

Para usar clubes da comunidade (CDCs) da Prefeitura de São Paulo, jovens da periferia pagam mensalidades de até R$ 86. Quem recebe o dinheiro são patronos de times de futebol de várzea que mandam e desmandam em espaços públicos. Em regiões carentes e sem opções de lazer, esses times transformaram clubes reformados recentemente pelo governo em franquias de escolinhas do Corinthians e do Santos. Alguns têm bares com shows de pagode nos fins de semana. Só entra quem pode pagar.

Pela primeira vez em três décadas, o governo municipal quer reassumir os CDCs e transformar alguns deles em "rolezódromos" para jovens e adolescentes realizarem bailes funk. Ao todo, são 298 clubes da comunidade na capital. Em pelo menos sete deles, o governo de Fernando Haddad (PT) quer colocar iluminação e permitir os "rolezinhos" que jovens passaram a fazer em parques e shoppings desde dezembro.

A tarefa não vai ser fácil. O atual modelo de gestão em vigor desde 1980 não tem quase nenhuma supervisão da Prefeitura e, para acentuar o problema, há brechas legais que permitem a exploração dos espaços.

Nos últimos cinco anos, as entidades que comandam os CDCs receberam, com a ajuda de emendas de vereadores, grama sintética paga pela Prefeitura - o custo médio para um terrão ganhar a grama é de R$ 180 mil. A Prefeitura já gastou mais de R$ 5 milhões para aplicar a grama sintética e construir vestiários nos CDCs desde 2008.

Só que, após as reformas, os clubes continuaram geridos por associações e sem qualquer tipo de fiscalização. Parte deles passou a funcionar como empresas que alugam campos de futebol society, com bar, campeonatos fechados, shows de samba e churrasco.

No CDC do Jaçanã, na zona norte, por exemplo, o preço da hora custa R$ 50 - pagos para o "coordenador" do campo Elson Ribeiro, de 50 anos, do time Jaçanã Futebol e Samba. No CDC Anhanguera, no Bom Retiro, na região central, a hora chega a R$ 150 no campo.

Alguns CDCs da Prefeitura chegam a ser "terceirizados". No clube Otávio Alves da Silva Neto, na periferia da zona oeste, quem manda desde 1985 são os patronos do Corinthians do Rio Pequeno. De segunda a sexta-feira, o espaço é usado pelo treinador Osvaldo de Lima Ministro, de 66 anos, que dá aulas de futebol para 40 crianças que podem pagar R$ 30 por mês.

"Eu cobro só R$ 15 para quem quer ser goleiro, para incentivar a molecada a jogar na posição", argumenta o instrutor, que paga R$ 500 por mês para o presidente do Corinthians do Rio Pequeno.

Franquia. Outro meio que os times de várzea encontraram para lucrar com clubes do governo foi transformá-los em franquias de escolinhas dos times grandes. No Morro do Piolho, favela com 30 mil habitantes na zona sul, crianças sem condições de pagar a mensalidade de R$ 50 da escolinha do Corinthians, montada no CDC Jardim Rosana, não jogam.

Do outro lado da cidade, na zona leste, o CDC Ermelino Matarazzo virou franquia do projeto Meninos da Vila, do Santos. Quem recebe as mensalidades de R$ 86 de 200 alunos, a maior parte moradores da região, são os coordenadores do time Veronia Esporte Clube. Em janeiro, os alunos precisaram pagar duas mensalidades adiantadas. O clube tem quatro piscinas vazias há 15 anos, segundo vizinhos.