Terra cede pela 2ª vez e mata criança

Bombeiro voltou ao local onde ouviu pedido de socorro, mas retirou garoto de 8 anos já sem vida

Alfredo Junqueira, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

O sargento bombeiro Luiz Carlos dos Anjos, o Lira, de 43 anos, mal dormiu na madrugada de ontem. Acordou às 5 horas para voltar ao Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no centro do Rio, e retomar o trabalho que a volta da chuva forte e outros deslizamentos na encosta o obrigaram a interromper na noite anterior. O bombeiro queria voltar para o que havia restado da Rua Gomes Lopes.

Ele tinha de continuar a cavar no local onde o menino Marcus Vinicius Vieira da França da Matta, de 8 anos, gritava por ajuda desde a manhã de terça-feira, quando foi soterrado por uma avalanche que destruiu mais de dez casas. O sargento Dos Anjos cumpriu sua missão. Encontrou a criança por volta das 10 horas, mas ela já não respirava.

Muito emocionado, o bombeiro retirou o corpo de Marcus Vinicius do meio dos destroços e, com a ajuda de colegas, o envolveu numa manta. A poucos metros dali, Valmir França da Matta, o pai do menino, aguardava ansioso o fim da operação. No dia anterior, ele havia acompanhado os trabalhos de resgate desde que os primeiros gritos abafados de seu filho foram localizados debaixo da terra.

Ao perceber que os bombeiros traziam um corpo sem vida, Valmir se desesperou. Levou as mãos à cabeça, chorou. Foi amparado pelos mesmos homens que tentaram salvar Marcus Vinicius durante horas. Valmir foi embora sem fazer declarações, abraçando o corpo do filho.

Proibido de dar entrevistas pelo comando da corporação, o sargento Dos Anjos contou para os colegas detalhes de sua atuação e voltou a se emocionar. Coberto de terra dos pés à cabeça, o bombeiro passou a ser cercado por curiosos, que até passaram das cordas de contenção para ouvir com mais facilidade. Percebendo o interesse que sua história despertava, o bombeiro passou a falar para quem quisesse ? ou precisasse ? ouvir.

Sensibilidade. "Criança sensibiliza mais. A gente cria um laço afetivo com os pais, luta com mais afinco para conseguir salvar. Mas a dor que a gente sente toda vez que localiza alguém já sem vida é grande demais", explicou Dos Anjos, para depois resumir a importância da atividade. "Travamos uma luta diária pela vida, e não contra a morte."

O sargento Dos Anjos estava de folga a partir das 8 horas de ontem. A escala de descanso foi para o espaço, como ele explicaria depois. O bombeiro disse que não teria como descansar em casa enquanto não terminasse de ajudar no resgate do garoto.

Lotado no quartel de Santa Teresa, ele disse que tentaria voltar ao Morro dos Prazeres hoje para continuar na operação. Percebendo o interesse da imprensa na sua história, Dos Anjos muito educado, pediu desculpas e disse que não poderia dar declarações. "Isso pode me atrapalhar". O que ele contou para os colegas e os moradores já era suficiente.

Emoção. Coordenador da operação na área em que Marcus Vinicius foi soterrado, o tenente coronel Carlos Correa de Mello Silva, comandante do Grupamento de Prevenção em Estádios (GPreve), também se emocionou quando viu o corpo do menino sem vida. "Para a gente sempre tem uma emoção forte em ocasiões como essa. Afinal, estávamos buscando uma criança. Infelizmente, quando a encontramos, ela já estava sem vida", lamentou o comandante.

Marcus Vinicius havia sobrevivido ao primeiro grande deslizamento de terra que ocorreu na manhã de terça-feira. Ele estava na casa de uma tia, na Rua Gomes Lopes, porque não tinha conseguido chegar ao colégio. Sua residência no Morro dos Prazeres estava em risco, depois que um muro quebrou e se escorou sobre as telhas.

A tragédia matou pelo menos 18 pessoas no local. A estimativa dos bombeiros é que pelo menos mais 15 pessoas estejam soterradas. O menino havia resistido.

Perto dele, duas primas ? Gelcilanda de Souza, de 44 anos , e Ana de Souza, de 32 ? morreram no desabamento.

Gritos de socorro. Ao longo da terça-feira, o menino gritava "me tira daqui, por favor", "vem logo, vem rápido". Os bombeiros tentavam se comunicar com ele. No meio da tarde, Marcus Vinícius parou de falar. "Tem muito gás vazando", observou um bombeiro. Os parentes do garotos ficaram apreensivos.

De repente, um novo grito de Marcus Vinicius precipitou uma comemoração que parecia com a de uma torcida de futebol. "Ele está vivo", gritou o pai. "Ele não pode morrer. É um menino de ouro", disse o tio Celso Vieira da Silva, de 41 anos.

Logo depois, a chuva voltou forte. Enquanto bombeiros que atuavam em outras áreas do desabamento interromperam o trabalho, o sargento Dos Anjos e colegas seguiram. Nova avalanche veio no início da noite. Quase pegou os bombeiros, que se viram forçados a parar. Nesse momento, Marcus Vinícius já não poderia ser salvo. /

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