Supervalorização e irregularidades esvaziam 23 imóveis na Avenida Brasil

Supervalorização e irregularidades esvaziam 23 imóveis na Avenida Brasil

Aluguel de até R$ 100 mil por mês inibe negócios na região; área foi pioneira e modelo em urbanização de alto padrão em São Paulo

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

03 Abril 2010 | 00h00

Símbolo de riqueza e modernismo no início do século passado, a Avenida Brasil hoje perde glamour e assiste à decadência progressiva de uma das áreas mais valorizadas de São Paulo, o Jardim América. Chama a atenção a quantidade de imóveis vazios, demolidos e abandonados com placa de vende ou aluga. Casarões nessas condições se multiplicaram nos últimos seis meses, ao longo dos 2.300 metros da via, num total de 23 mansões.

No número 216, a propriedade da família Di Giulio é exemplo da situação. Em 1925, esses imigrantes italianos embarcavam num projeto ousado ao comprar um terreno de 1.496 metros quadrados na avenida criada para concentrar grandes mansões e que cortaria o primeiro bairro projetado para ser um grande jardim. A região atraiu várias famílias de industriais e profissionais liberais. Todos bem-sucedidos e dispostos a exibir fortunas nas fachadas das novas casas.

Do sobrado suntuoso dos Di Giulio ? que exibia entrada de mármore e um belo jardim quase integrado com as áreas verdes do passeio público arborizado ? sobraram apenas escombros. A história da casa ilustra bem a mudança da região. Em 1972, ela deixou de ser residência e foi alugada por um laboratório clínico até 2004. Depois, passou por reformas malsucedidas, que transformaram o casarão em um esqueleto de concreto, que está à venda por R$ 6,5 milhões.

O alto valor dos imóveis explica, em parte, o esvaziamento da avenida. Assustados com os reflexos da crise financeira e com a elevação do valor dos imóveis comerciais, muitos inquilinos desistiram do local.

"Os aluguéis comerciais subiram em toda a cidade", diz Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp). "Os preços dos imóveis de alto padrão dobraram na capital em comparação com a média cobrada em 2005." Outros corredores, como as Avenidas Europa, Colômbia e 9 de Julho, também enfrentam o mesmo problema.

Na Avenida Brigadeiro Faria Lima, por exemplo, o m² da locação chegou a R$ 120. Na Brasil, o valor é menor, R$ 50, no seu lado mais nobre, entre a 9 de Julho e a Rua Guadalupe. "O problema se agrava na Avenida Brasil porque os aluguéis são proporcionais ao tamanho das propriedades", diz Pompéia. Há na região uma mansão com vaga para 90 carros para alugar por R$ 100 mil, e luvas de R$ 3,5 milhões. "O mercado para esse tipo de imóvel é muito restrito", diz a especialista Kathia Raucci, da Saramandona Imobiliária.

Irregulares. A Eletromídia foi uma das empresas que saíram da Avenida Brasil. Mudou-se para a Rua Atlântica, nas proximidades. A troca tem a ver com a redução de custos. Mas esse não é o único problema da região. Dos 23 imóveis vazios, metade está irregular, segundo a Subprefeitura de Pinheiros. O esqueleto de concreto da família Di Giulio é um deles. O mesmo ocorre com outro imóvel, 200 metros à frente, no número 418.

"Essas casas eram residências antigas que precisam de muitas adaptações para se adequar ao novo uso", explica o oftalmologista Renato Neves, proprietário da Clínica Eye Care, há 11 anos localizada no número 1.368. "Quero aproveitar essa evasão de empresas para renegociar meu aluguel." O médico adaptou o local ao seu negócio, mas dentro das normas, o que nem sempre ocorre.

Reforma. "A culpa, na maioria das vezes, não é do proprietário", diz Valentina Caran, dona de imobiliária. "Não é raro o inquilino fazer reformas sem consultar os órgãos competentes ou o dono da casa."

No caso dos casarões tombados, a reforma só é considerada regular se passar pelo crivo do órgão de proteção do patrimônio histórico e da Cia. City, responsável pelo loteamento da região que estabeleceu cláusulas contratuais para preservação dos imóveis. Há especificações sobre o tipo de atividade comercial. Uma vez alugada a casa, a empresa só consegue o alvará de funcionamento se não houver pendência perante os órgãos. "Tem gente que rasga o contrato de aluguel por causa disso", diz Valentina. "Há donos perdendo fortunas com casa vazia."

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