Suíço transforma postais sobre SP em obras de arte

Apaixonado pela cidade, o escritor e pintor Armin Gyger coloca em cartões vendidos em bancas as imagens que faz da capital

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

Cartões-postais ganham contornos artísticos nas mãos do pintor e escritor suíço Armin Gyger, de 70 anos. Em 1959, quando chegou a São Paulo, ele mal imaginava que suas impressões sobre a metrópole se converteriam em inspiração e trabalho. Há oito anos, o artista transforma em souvenirs de papel quadros que, em tom extremamente colorido e em negação veemente ao cinza que lhe é peculiar, pintava para retratar o cotidiano paulistano.

Entre idas e vindas ao País, são 18 anos na capital, onde ele resolveu ficar de vez há cinco. "Tinha a ideia fixa de vir para o Brasil. Já perdi as contas de quantas vezes vim, só de navio foram três", diz Gyger, que adotou o nome Armindo ? junção de "Armin" com "do Brasil". Ao desembarcar no Rio, aos 19 anos, foi aconselhado a procurar trabalho em São Paulo. "Achei a cidade fantástica."

Hoje, Gyger mantém o mesmo encantamento e o conjunto da obra sempre batiza de Um Universo Chamado São Paulo. A diversidade cultural é, assim, traduzida em pinturas. "Depois de Nova York, São Paulo é a cidade mais multiétnica que conheço", diz o artista, que demora até dois meses para fazer cada quadro.

Gigantismo. Desse universo efervescente, é a arquitetura do centro e a verticalização que mais despertam a criação de Gyger. Nos quadros, que depois são fotografados e transformados em postais, ele retrata arranha-céus, trânsito, impermeabilização do solo, lúdica e ironicamente. Outra característica é a fusão espacial de edifícios. "O turista que chega aqui e quer se orientar pelos postais fica louco, pensa que é tudo perto", brinca.

As obras são feitas com técnica mista ? tinta acrílica e outros materiais ? sobre eucatex. Depois, o quadro é fotografado em um laboratório.

Os postais são impressos e vendidos em bancas da Avenida Paulista e do centro, além de lojas em Moema, duas papelarias do Conjunto Nacional e livrarias como a do Espaço Unibanco e a Nobel, ambas na Rua Augusta. Os preços variam de R$ 1,50 a R$ 2,50. "Vendemos mais para turistas. Eles acham diferente e acabam comprando", diz José Miranda Filho, da Banca Trianon I.

Origens. A ideia dos postais surgiu por acaso, quando Armin decidiu usar o formato para divulgar seus quatro livros escritos em alemão. Um deles foi traduzido para o português e lançado em 2009 com o título Nada como a manhã do dia seguinte!

Ao ver os cartões, um amigo o aconselhou a investir no formato para divulgar quadros. Segundo Gyger, os postais retratam a cidade de forma a conscientizar os turistas sobre sua grandiosidade e também sobre seus problemas. "Os postais tradicionais não têm graça, são iguais no mundo inteiro", sentencia.

Em galeria. Apesar de os postais de Gyger terem surgido a partir de quadros, suas telas ganharam espaço em galeria depois da fama de seus cartões. Ao ver um dos postais, o galerista Carlos Eduardo Rodrigues, de 38 anos, decidiu encomendar um quadro (1,60x 2,5 ) para colocar na Galeria Jauaperi, em Moema, zona sul. Lá estão obras de artistas renomados como Anita Malfatti, Aldemir Martins, Tomaz Ianelli, Siron Franco e Cláudio Tozzi.

"Estou numa região turística. O quadro pode atrair esse público para a galeria", afirma Rodrigues. O trabalho, diz ele, cativa por representar a devoção de um estrangeiro por São Paulo. "É uma pintura trabalhada, muito bem pensada e criativa."

A cidade alegre. A Livraria Nobel fez o lançamento do livro de Gyger e já vendia os postais quando decidiu abrir espaço para os quadros. "Os postais vendem muito, principalmente para turistas. Uma cliente comprou um postal e quis um quadro igual", conta o gerente Edilton Guedes. Ele diz que prefere as imagens de Armin a tradicionais postais por causa do aspecto "meio surrealista". "Enxergo nesses postais uma São Paulo mais alegre."

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