SP tem nova tribo: os ‘hackers urbanos’

Da sala-bolha ao orelhão que informa sobre linhas de ônibus, inventores observam a cidade para criar soluções que facilitem o dia a dia

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2016 | 03h00

Há uma coisa em comum entre o publicitário Raphael Franzini, o designer Lucas Neumann, o cenógrafo Ricardo Bizafra e os engenheiros Diogo Tolezano e Pedro Godoy. Todos são hackers. Mas não daqueles que ficam atrás do computador, criam armadilhas para internautas ou invadem dados. O que eles fazem é observar a cidade, perceber problemas e propor soluções - e nem sempre precisam de tecnologia avançada.

“Hacker urbano” é como são chamadas as pessoas que desenvolvem, por conta própria, iniciativas para melhorar a cidade. Desde instalação de bancos em uma praça ou até mesmo criar medidores da qualidade do ar. “É o cara que observa oportunidades para fazer intervenções. Mas ele não pergunta para fazer, ele faz”, diz Andrei Speridião, um dos mentores do Festival Red Bull Basement, que reúne pessoas, normalmente entre 25 e 35 anos, ligadas à cultura do “faça você mesmo”. “A forma como o hacker aborda pode ser tecnologia digital ou não.”

O publicitário Raphael Franzini, de 34 anos, resolveu “hackear” a cidade desenvolvendo uma nova função para um equipamento em desuso: o orelhão. Para isso, criou um sistema que usa dados da São Paulo Transporte (SPTrans) e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e permite aos usuários saber quais os próximos ônibus que vão passar no local. Basta discar 0800-887-0878. “Quando a pessoa liga, a gente sabe o numeral e o ponto de ônibus mais próximo”, diz. Em cerca de um mês, o “Smart Orelhões” teve 984 ligações.

Muitos projetos de hackers são feitos em código aberto, para facilitar a participação de outras pessoas. Um deles é o “Mapa Daqui”, desenvolvido pelo designer Lucas Neumann, de 25 anos, que oferece sinalizações para pessoas que andam a pé.

Trata-se de um sistema colaborativo que gera o mapa de uma região, com setas indicativas e espaço em branco para que qualquer um escreva informações sobre o local. “As pessoas são incentivadas por uma lógica de deslocamento do carro, em que ela não necessariamente aproveita o percurso. A ideia é poder conhecer mais a região”, afirma Neumann.

Salas-bolha. Já o cenógrafo Ricardo Bizafra, de 31 anos, tem desenvolvido um ambiente para reuniões, palestras ou aulas que cabe em uma sacola de supermercado. São as “salas-bolha”, feitas de estruturas infláveis de cerca de 20 m², que podem ser montadas em praças ou parques, por exemplo. Para armá-la, um ventilador residencial é suficiente. “A maior vantagem é montar e desmontar onde e quando quiser”, diz.

Os amigos Diogo Tolezano e Pedro Godoy, de 33 e 32 anos, respectivamente, estão trabalhando para lançar uma plataforma de informações meteorológicas no próximo verão. Chamado “Pluvi.On”, o projeto quer, por exemplo, prever enchentes em realidade hiperlocal, ou seja, uma rua ou um ponto específico da cidade.

A dupla inventou um pluviômetro para calcular a intensidade da chuva e emitir informações em tempo real. “Ele dispara um alerta se houver risco de enchente”, diz Tolezano. O equipamento também informa temperatura, umidade do ar, pressão e velocidade dos ventos. “Um pluviômetro custa, em geral, R$ 3 mil. Este aqui sai por R$ 130”, diz Godoy. 

Laboratório digital é responsável pela maioria dos projetos

A maior parte dos projetos de “hackers urbanos” é desenvolvida em Fab Labs, laboratórios de fabricação digital que são equipados com máquinas específicas, como cortadora a laser e impressora 3D. “A gente consegue fazer de tudo: de um brinquedinho até produto de alta tecnologia”, afirma o designer de produtos Tauan Bernardo, diretor do Garagem Fab Lab, o primeiro independente do Brasil.

Além de incentivar soluções criativas, os laboratórios também podem ser usados para desenvolver equipamentos mais baratos. “O Fab Lab nasce do mote do ‘faça quase tudo’”, diz Bernardo. “No ano passado, a gente criou máquinas para biotecnologia, microscópio... Não são coisas de brinquedo. O projeto custou R$ 6 mil. No mercado, seriam R$ 80 mil.”

Para Andrei Speridião, o “movimento maker” ainda precisa vencer alguns desafios. Um deles é conseguir transformar o projeto em produto que não pare no protótipo e seja produzido em escala. “Eu mesmo comecei um projeto e tive dificuldade”, diz. “A ideia era que as pessoas da cidade pudessem acompanhar o estado dos bueiros, fiscalizar e denunciar. Mas acabei vendo o tamanho da coisa, que envolvia gestão pública, e resolvi não seguir adiante.” 

Speridião também afirma que a atividade ainda é pouco inclusiva, apesar de haver Fab Labs gratuitos em São Paulo, e todas as pessoas do meio se conhecem. “O ‘maker’ precisa ser para todos. Todas as discussões estão muito pautadas da classe média para cima.”

Atualmente, há 12 Fab Labs da Prefeitura de São Paulo, com unidades em todas as regiões da cidade. Entre elas há um laboratório público na Galeria Olido, no centro, e na Chácara do Jockey, na zona sul. 

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