HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

SP tem 4 registros de assédio sexual por semana no transporte público

Vítimas relatam constrangimento e medo, mas mostram cada vez mais coragem para denunciar e há até quem processe o Estado em busca de indenização

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

14 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Atordoada, assustada, traumatizada, aos prantos, desesperada. A reação muda, mas o crime é o mesmo – assédio sexual – e vem crescendo no transporte público da capital paulista. Em 2016 foram mais de quatro casos, em média, por semana. Se forem considerados os últimos quatro anos, o número de boletins de ocorrência registrados por estupro, ato obsceno, importunação ofensiva ao pudor e estupro de vulnerável avançou 850%. 

Entre 2013 e 2016, as denúncias saltaram de 23 para 219 em ônibus municipais, trens da Companhia do Metropolitano (Metrô) e da Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos (CPTM), conforme dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação. A maioria dos casos aconteceu no Metrô e na CPTM. Em 2016 foram 188 relatos em trens e 31 em ônibus.

O assédio é, historicamente, um dos crimes com mais subnotificação. Envergonhadas com a situação, muitas vítimas simplesmente não fazem o registro da ocorrência. Os dados mostram, porém, que as mulheres têm procurado cada vez mais as delegacias de polícia. 

Após uma série de episódios de assédio sexual no Metrô virem à tona, motivando protestos de grupos feministas nas estações, o Metrô criou uma campanha em agosto de 2015 que incentiva a denúncia de passageiros. Cartazes espalhados nas estações, com fotos de agentes de segurança, passavam a mensagem: “Você não está sozinha”.

No primeiro semestre daquele ano, um homem ejaculou nas pernas de Shirlândia Mendes, hoje com 29 anos, em um vagão da Linha 3-Vermelha. Ela estava a caminho do trabalho, por volta das 7 horas, quando sentiu uma pressão nas costas. Quando as portas abriram na Estação Pedro II, percebeu o que havia acontecido. “Eu me virei e vi a minha perna toda suja. Ele estava fechando o zíper da calça. Na hora, me desesperei e comecei a gritar pedindo ajuda”, diz.

Acabou socorrida por outros passageiros, que seguraram o agressor no vagão. Todos desceram na Estação Sé e agentes de segurança prestaram apoio. “Antes de ir à delegacia, fui ao banheiro para lavar minhas pernas. Estava muito atordoada, muito assustada. Minhas pernas estavam bem sujas, ficou escorrendo. Mas, como não tinha roupa para trocar, continuei de bermuda para ir fazer o boletim de ocorrência”, relata ela.

O episódio foi tão traumatizante para Shirlândia que ela parou de trabalhar e ficou um ano sem conseguir entrar no Metrô sozinha. “Saí do serviço porque não queria mais pegar aquele trajeto. Fiquei com medo de encontrá-lo de novo, com medo de que pudesse ter ficado com raiva e quisesse se vingar. Então, resolvi parar por um tempo. Dois anos depois, agora consigo andar de metrô sozinha.”

Ela decidiu ir além do boletim de ocorrência e entrou na Justiça contra o Metrô, pedindo indenização de R$ 20 mil. Conta também que decidiu denunciar, processar o governo e até se identificar nesta reportagem para servir de exemplo a outras mulheres. “Temos de abrir a boca e falar mesmo, precisamos nos impor. Nós não somos culpadas disso.”

Segundo Shirlândia, muitas amigas relatam casos semelhantes, mas sentem falta de uma rede de apoio e não vão além da indignação. Uma das alternativas, aponta, é o aumento do número de agentes de segurança nos vagões. “Deveria haver mais guardas dentro do vagão porque ficamos muito expostas.”

‘Coragem’. O assédio a uma atendente de telemarketing de 21 anos, que preferiu não se identificar, aconteceu no retorno do trabalho para casa, também na Estação Dom Pedro. Ela conta que um homem parou ao seu lado com uma mochila na mão e começou a levantar a bolsa, passando no meio das suas pernas. “Ele passou a mão nas minhas pernas, na minha coxa, então saí de perto”, diz.

A moça começou a mexer no celular e não percebeu quando o agressor se posicionou, desta vez, à frente dela. “Um rapaz atrás dele me avisou que ele estava tirando fotos minhas. Ele se assustou, saiu correndo para o vagão.” A jovem foi atrás.

Ao abordar o homem, viu que ele havia feito fotografias e vídeos do seu decote. “Chorei muito quando o segurança pegou ele. Acho que as mulheres têm criado mais coragem para ir em frente e denunciar.”

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Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

14 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Os casos de assédio em 2014 e 2015, que mobilizaram a campanha do Metrô, incentivaram ainda mais a formação de grupos de mulheres interessadas em cobrar do poder público mais segurança no transporte público. Um dos resultados foi a criação dos cartazes em agosto de 2015, campanha da qual a jornalista Nana Soares, blogueira do Estado, foi coautora. Ela avalia que a ação foi positiva e impulsionou a explosão de denúncias, mas diz que este foi somente um primeiro passo. 

“A mulher denunciar é o primeiro passo”, ressalta ela. “Precisa haver um mecanismo que ampare essas denúncias para que, a longo prazo, esse número de casos de assédio possa diminuir”, diz Nana. 

Para ela, falta ainda uma articulação entre os modais: ônibus, metrô e trem. Se uma mulher sofrer assédio em um terminal de ônibus que seja conectado, por exemplo, a uma estação do Metrô, ela deveria ser acolhida por qualquer funcionário público. “Estado e município precisam ter ações mais articuladas. As usuárias têm de se sentir amparadas em todos os espaços, sem limites institucionais.” 

Próximo passo. Um dos grupos que surgiram no período da campanha foi o Chega de Assédio, criado por vítimas na linha metroferroviária. Segundo a produtora audiovisual Regina Albano, de 32 anos, que integra o coletivo, futuramente a luta deve ser nos ônibus.

A ativista conta que começou a mobilização contra o assédio quando foi vítima em um ônibus, dez anos atrás, na capital. Ela estava sozinha com um homem no coletivo, além de motorista e cobrador. O usuário começou a se masturbar olhando para Regina. “Fiquei com medo e falei para o cobrador. Ele me respondeu: ‘Eu não posso fazer nada’. Foi como se dissesse: ‘Isso é comum’.”

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Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

14 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) afirma que o aumento das denúncias está diretamente ligado “às constantes campanhas realizadas pela empresa, que condena este tipo de crime, seja dentro ou fora do transporte público, e estimula que o usuário denuncie essa prática”. Segundo a companhia, 89% dos abusadores descritos pelas vítimas são detidos pelos agentes de segurança do Metrô e encaminhados às autoridades policiais.

“Além da atuação para inibir e coibir esse crime, os agentes de segurança, assim como os demais funcionários operativos, são treinados e preparados para acolher as vítimas, até estimulando o registro do boletim de ocorrência para o prosseguimento das investigações. Essa preparação foi intensificada e aprimorada após a criação da campanha ‘Você não está sozinha’”, diz o Metrô. Segundo a companhia, o resultado dessa campanha também pode ser visto pelo aumento das denúncias de abuso recebidas por SMS-Denúncia: 10 em 2013; 61 em 2014; 165 em 2015; e 195 em 2016. 

Procurada, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) informou que também “tem intensificado suas campanhas de cidadania e conscientização e as ações de combate ao crime”. “Isso tem estimulado mulheres que passam por este constrangimento a registrarem denúncia e BO em delegacias de polícia.”

Zero registros. Já a Secretaria da Segurança Pública destacou, em nota, o trabalho da 6.ª Delegacia de Polícia do Metropolitano, que “resultou no aumento de 20% nas detenções de importunadores e a redução a zero do número de estupros no interior das composições, em 2016”. “Atualmente, em média, 75% dos casos de contravenções penais de importunação ofensiva ao pudor registrados na Delpom são solucionados.” 

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