JF DIORIO /ESTADÃO
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São Paulo registra 26 quedas de árvores por dia

No quarto janeiro mais chuvoso dos últimos 75 anos, capital paulista teve 833 registros; Prefeitura fará diagnóstico

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O portão da garagem do Edifício Maison Montclair, em Higienópolis, era novinho, tinha sido reformado quatro meses antes, quando foi transformado em um V na quinta-feira da semana passada. Uma árvore plantada na frente do prédio despencou sobre o portão durante as fortes chuvas que atingiram a capital.

Nesta quarta (1º), enquanto o zelador Cesar de Moura contava para a reportagem o que tinha ocorrido e dizia que o prédio planejava acionar a Prefeitura para ser reembolsado, um galho de uma outra árvore na rua caiu sobre um carro. Perto dali, pouco depois, na Avenida Angélica, duas árvores desabavam sobre uma kombi.

No quarto janeiro mais chuvoso dos últimos 75 anos, São Paulo registrou ao longo do mês a queda de 833 árvores – 26,9 por dia. Somente entre quinta e sexta-feira da semana passada, ocorreram 132 quedas, com destaque para as regiões da Sé (28), Vila Mariana (15) e Pinheiros (12).

O problema não é causado diretamente pelas chuvas, mas é favorecido por ventos fortes ou pancadas d’água muito intensas e localizadas, como as observadas na semana passada. Essa também foi a explicação para o alto número de árvores que caíram há dois anos. Em janeiro de 2015, apesar de ter chovido cerca de um terço do que choveu em janeiro deste ano (156,2 mm contra 453,8 mm), caíram 1.013 árvores na capital, segundo dados da Defesa Civil, por causa da ocorrência desses eventos intensos.

Os números de dois anos atrás e de agora, porém, impressionam e chamam a atenção para o estado de conservação das árvores. O secretário do Verde e do Meio Ambiente, Gilberto Natalini, reconheceu em entrevista ao Estado que hoje a Prefeitura não sabe exatamente quantas existem nem qual é o seu estado de saúde. A última estimativa, de 2014, falava em cerca de 650 mil.

“É um dado antigo, também não temos uma diagnóstico preciso de quantas estão doentes, mas há alguns cálculos de que cerca de 30% precisam de cuidados”, disse. Ele afirmou que pretende, ao longo do ano, fazer esse diagnóstico.

Tomografia. Uma experiência-piloto para tentar lidar com o problema foi feita nesta terça, 31, pela Prefeitura Regional da Vila Mariana com a Secretaria do Verde. Com um tomógrafo emprestado, foi feita uma análise das condições de 40 árvores localizadas ao longo da Avenida República do Líbano, no Ibirapuera, zona sul de São Paulo.

O aparelho e o serviço foram doados para essa atividade pela empresa AMG Ecologia Aplicada, que informou cobrar, em média, por árvore, R$ 2 mil para rodar o diagnóstico, o que totaliza em R$ 80 mil o trabalho completo. Somente o aparelho custa cerca de R$ 130 mil.

“Experimentamos uma técnica que hoje a prefeitura não tem. Se sentirmos que é uma coisa importante, podemos colocá-la como um objetivo da secretaria para diagnosticar árvores doentes”, disse Natalini. “A ideia é não depender somente do olho humano para poder evitar quedas e descobrir se uma árvore tem de ser retirada ou podada”, complementou.

Para o biólogo Ricardo Cardim, que tem um projeto de plantio de árvores nativas em São Paulo e também atua com esse tipo de análise, a tomografia é bem-vinda, mas insuficiente. “Essa tecnologia é um instrumento acessório importante, mas não é o que vai salvar as árvores da cidade. É preciso antes de mais nada fazer o simples: um inventário, um mutirão para desobstruir canteiros que foram cimentados, refazer áreas permeáveis no entorno das árvores e aterrar a fiação elétrica”, afirma.

Segundo Cardim, hoje o principal fator de fragilização das árvores são as podas para livrar a fiação elétrica. “Normalmente são cortados galhos muito grandes. E isso acaba deixando a árvore ferida, o que é um convite para fungos e cupins. A árvore não consegue cicatrizar antes de ser contaminada. E São Paulo todo ano perde uma floresta em galhos grandes cortados por causa da fiação”, explica.

Outro problema são os entornos cimentados. “Isso enforca a árvore, que pode morrer ou ficar fragilizada e cair. Com o cimento, ela também não recebe nutrientes e oxigênio do solo. A árvore cai porque a raiz apodrece”, afirma. “Essas são as duas maiores causas, a poda de galho grande e o cimento. E são coisas evitáveis”, diz.

Chuvas. A capital paulista teve neste ano o 4.º janeiro mais chuvoso dos últimos 75 anos, com um total de precipitação, até a manhã desta terça-feira, de 453,8 mm, de acordo com registros da estação meteorológica do Mirante de Santana, zona norte de São Paulo.

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a quantidade de chuva foi 74% acima da média do mês, que é de 261,2 mm, observada entre 1943 e 2016. O janeiro mais chuvoso foi o de 2011 (493,7 mm), seguido de 1947 (481,4 mm) e 2010 (480,5 mm).

Janeiro de 2017 teve 21 dias seguidos com chuvas, cinco dias a mais que a média histórica para o mês, que é de 16 dias. Ainda de acordo com o Inmet, o maior volume de chuva em 24 horas foi registrado no dia 16, com 115 mm.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. O que fazer ao perceber que uma árvore está ameaçada?

De acordo com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, se a árvore estiver na rua, é preciso acionar a prefeitura regional, preenchendo uma tramitação interna de documento (TID), com CPF, RG e imagens da planta. Se for dentro da residência, também é preciso abrir um processo para avaliação do corte. Em caso de urgência, porém, em que há iminência de queda, a orientação é chamar a Defesa Civil ou o Corpo de Bombeiros.

2. Se uma árvore cai sobre um carro ou sobre uma casa, o que fazer?

Acionar o seguro, se houver. Se a árvore estiver em logradouro público, o morador também poderá acionar a Prefeitura, que vai analisar o caso em um processo que pode levar alguns meses.

3. O que fazer para evitar acidentes desse tipo?

O manejo das árvores da cidade cabe à Prefeitura, mas os moradores podem colaborar não fazendo podas sem autorização nem cimentando canteiros, deixando permeável o entorno das árvores. Dessa forma, elas não ficam enfraquecidas, o que colabora com quedas.

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