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SP já movimenta R$ 40 bi por ano com criatividade

Rodrigo Brancatelli - O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2011 | 00h 00

Pesquisa encomendada pela Prefeitura mostra que moda, design e outras indústrias criativas representam quase 10% do PIB da cidade

Mesmo com seus 1.522 quilômetros quadrados de área, quase o mesmo tamanho de Hong Kong, a cidade de São Paulo não produz um grão sequer de soja ou milho, petróleo ou algodão, muito menos café ou ferro. Mas produz conhecimento. E informação. São justamente essas "commodities" diferentes e um tanto intangíveis que fazem a capital disputar hoje o posto de uma das principais economias criativas do mundo, ao lado de Nova York, Londres. Barcelona e Berlim.

A indústria criativa envolve áreas culturais, artísticas e intelectuais que vão do design à arquitetura, passando por informática, mercado editorial, artes cênicas, moda e cinema. Atualmente, essa faceta de São Paulo já movimenta R$ 40 bilhões por ano, quase 10% do PIB da capital, segundo a Prefeitura. E, de acordo com pesquisa inédita encomendada pelo governo para a Fundação do Desenvolvimento Administrativo, a taxa média anual de crescimento do emprego formal no setor alcança os 9,1% - se essa curva ascendente continuar, em menos de uma década a economia criativa paulistana vai chegar ao mesmo patamar de Londres, na Inglaterra, o maior exemplo de como o setor pode reinventar uma cidade.

Inglaterra. "Londres teve sua fase decadente e se reinventou depois que começou a apostar em sua indústria criativa", diz o secretário o secretário municipal do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho, Marcos Cintra. A cidade inglesa aumentou seu PIB em 25% nos últimos 15 anos apostando em áreas como cinema, teatro e design, além de atrair um número 350% maior de turistas. "Queremos incentivar cada vez mais a economia criativa em São Paulo. Temos o projeto de criar polos tecnológicos no Jaguaré e na zona leste, além de investir em centros de design. É natural que uma megalópole como a nossa aposte nisso. Há até áreas como teatro e shows em que já temos papel de liderança nos rankings mundiais."

Cada vez mais importante para atrair turistas para a cidade e consolidar a marca "São Paulo", a indústria criativa engloba, por exemplo, a Fashion Week - hoje a quinta maior semana de moda do mundo -, os teatros da região central, as agências de publicidade, os grafites da dupla osgemeos, as elegantes linhas do arquiteto Isay Weinfeld, os móveis com a grife dos irmãos Campana ou mesmo as histórias em quadrinhos da Turma da Mônica ou dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. E, mesmo sem incentivos públicos, essa São Paulo inovadora já conseguiu revitalizar áreas decadentes da metrópole, como na Rua Augusta, totalmente transformada depois da chegada de danceterias, e a Vila Leopoldina, cujos galpões ganharam vida com a instalação de uma dezena de produtoras de vídeo.

"Imagine então se houvesse incentivo por parte do governo", diz a economista Lidia Goldenstein, autora da pesquisa encomendada pela Prefeitura. Ela cita Barcelona como exemplo a ser seguido por São Paulo - na cidade espanhola, projetos de reurbanização foram atrelados ao incentivo de ocupação de áreas degradados por segmentos pertencentes à economia criativa. "A Prefeitura nem precisaria colocar dinheiro, mas sim fazer articulação com o setor privado. É uma questão de decisão política e ousadia."

Alemanha. Berlim também serve como ótimo modelo para São Paulo. Lá, empresas ligadas à economia criativa têm isenção de impostos e até ganham imóveis para se instalar gratuitamente ao longo do Rio Spree, que corta a cidade. Uma década depois da aplicação dessa política, Berlim tem hoje 2.550 agências de publicidade, 1.540 empresas de videogames e 36.300 pessoas empregadas em empresas de cinema.

"A criatividade é ótima para a cidade, é o motor da inovação e do crescimento. Artistas também são incentivados a morar aqui, para ajudar a movimentar a economia", diz Wolfgang Humel, diretor de investimentos da Secretaria de Planejamento Urbano de Berlim. "É por isso que o número de galerias e pequenos museus cresceu mais de 400% nos últimos anos. O bairros mudam, ganham novos ares. Isso acaba trazendo mais investimentos para a cidade, novas empresas e novos nomes do mercado que ajudam a criar uma marca Berlim."

Incentivos

WOLFGANG HUMEL

DIRETOR DE INVESTIMENTOS DA SECRETARIA DE PLANEJAMENTO URBANO DE BERLIM

"A transformação de uma cidade industrial em uma metrópole baseada em serviços e nas indústrias criativas é o caminho natural para todas as megalópoles do mundo. O importante é como aproveitar isso e o boom de novas construções para melhorar a qualidade de vida das pessoas."

LÁ TEM...

Barcelona

Antes das Olimpíadas, o governo criou um plano de renovação urbana de 20 anos com base na economia criativa. Houve incentivo para que empresas tecnológicas e culturais se instalassem em determinados distritos, favorecendo a colaboração entre elas. Assim, 4 milhões de m2 de área foram revitalizados e 30 mil empregos foram criados.

Londres

Desde 1997, agências municipais foram criadas para incentivar a produção em setores como moda, cinema e design. Hoje, as exportações de serviços das indústrias criativas totalizam £ 16 bilhões por ano. Em muitas áreas da cidade, o imposto das companhias foi revertido em obras de infraestrutura, como praças e equipamentos públicos.

Berlim

A cidade incentivou a ocupação de galpões abandonados ao longo do Rio Spree por empresas tecnológicas, de mídia e design, da menor companhia até gigantes como a MTV. A ideia é que essas empresas mais moderninhas ajudem a revitalizar porções de Berlim, atraindo com elas lojas descoladas, cafés e restaurantes da moda.

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