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SP: Até no 'rush' da temporada, litoral norte tem praias limpas e desertas

Diego Zanchetta, de O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2012 | 21h 32

Por barco ou trilha, é possível chegar a áreas preservadas de Mata Atlântica entre São Sebastião e Ubatuba, como a Fazenda Caçandoca

Nas férias de janeiro, quando a disputa por um m² nas praias do litoral norte começa cedo, passar o dia descansando em areias quase desertas é possível. Basta um pouco de disposição para caminhar - vale também alugar um barco. Com quase 200 praias e uma combinação única de Mata Atlântica e mar de águas cristalinas, a região preserva tesouros de beleza selvagem ainda desconhecidos, a maioria na costa entre Ubatuba e São Sebastião.

São as faixas de areia mais exclusivas e paradisíacas do Estado, que permanecem vazias mesmo no “rush” da alta temporada. Tem praia com ruínas históricas, golfinho, cachoeira. Em nenhuma você vai se deparar com o “urbanismo” de orlas como Maresias, Camburi ou São Sebastião. Nesses locais, não tem queijo coalho, fila de carros nem som alto em quiosque.

Um desses refúgios fica na área reconhecida como um dos primeiros quilombos brasileiros, habitado por escravos até meados do século 19. Fora as casas com paredes em taipa de pilão de 1858, tombadas pelo patrimônio histórico nacional, a Praia da Fazenda Caçandoca, ao sul de Ubatuba, tem como atrações areias brancas e um mar límpido, calmo e de águas mornas. O clima é de fazenda com praia. É como se o Parque da Água Branca, na zona oeste da capital, estivesse vazio e com um imenso mar azul em seu entorno.

Acesso. O acesso à fazenda é fácil, feito de carro por uma estrada de terra de 6 km - o começo fica na altura do km 77 da Rodovia Rio-Santos (BR-101), no bairro de Maranduba, e se arrasta por um morro dentro da Serra do Mar. Artistas e colecionadores paulistanos costumam ir à fazenda, mesmo fora da temporada, comprar o rico artesanato feito por 19 famílias de descendentes de escravos que ainda moram no local. Quase todos têm o sobrenome “da Mata” e muitas histórias sobre o misticismo da praia, que tem um enorme pasto cercado por paredões de mata virgem.

“Aqui os escravos do litoral começaram a se mobilizar. Nesse quilombo houve vários motins contra portugueses que tomavam conta do engenho da fazenda. Por isso existe esse ar libertário aqui na praia, essa sensação de que existe algo divino”, conta Neuza da Mata, de 59 anos. Com a filha Aparecida, de 31, ela produz peças só com o que é achado na região - conchas, escamas de peixe, folhas de amendoeiras.

No meio da praia, um riacho limpo deságua no mar. Pela orla, passam alguns poucos pescadores e surfistas. Como há sombra natural em metade da faixa de areia, obra de centenárias figueiras, o guarda-sol é dispensável. No fim do dia, do alto de um dos morros da praia, é possível ver o pôr do sol com vista de toda a Baía de Maranduba e da Ilha Anchieta. “A maior parte dos turistas prefere agito em Maresias, Ilhabela. Na Caçandoca e na Praia do Pulso, nem fogos nós permitimos no ano-novo para não assustar os bichos da mata. Aqui é para quem quer contemplar a natureza e o sossego”, conta Emília de Fátima da Cruz, de 51 anos, descendente de escravos que mora na fazenda.

Trilhas e barcos. Da Fazenda Caçandoca também é possível fazer pequenas trilhas ou pegar embarcações até outras praias ainda mais paradisíacas e quase desertas, como a Praia do Pulso. A trilha de 40 minutos tem subidas íngremes, mas o visual da praia parece levar o turista por inércia.

A pequena orla de cerca de 800 metros tem piscina natural. Dono de academia na Saúde, zona sul, o paulistano Rodrigo Clarke, de 45 anos, e a mulher Ana Figueiredo, de 36, passam as férias todo ano em Caraguatatuba. “Há 14 anos descobrimos essa praia. Todos os dias a gente vem pra cá. É ideal para deixar meu filho brincando sem preocupação”, diz Ana, que deixa Cristian, de 5 anos, brincando em uma cadeira flutuante na parte mais rasa do mar. “Nem ficamos nas praias de Caraguá nesta época. São muito lotadas”, diz Clarke.

Também é possível chegar à Praia do Pulso por dentro do condomínio vizinho. De pequenos barcos que saem todos os dias da Caçandoca ainda é possível fazer um tour de quatro horas por seis das mais desertas praias do litoral paulista: Saco das Bananas, do Simão, da Lagoa, da Ponta Aguda, da Figueira e da Tabatinga - todas são consideradas reservas naturais pelo governo federal, com proibição à permanência e ao trânsito de veículos.