'Sou bom nisso. Digito sem olhar', diz analista

Jovens dizem ter habilidade e conhecer 'de cor e salteado' posição das letras no teclado

O Estado de S.Paulo

08 Julho 2012 | 03h02

"Olha, eu sou bom nisso!" É assim que o analista de sistemas Felipe Callegaro Magalhães Pereira, de 24 anos, responde se troca mensagens com os amigos e dirige ao mesmo tempo. Você pode, então, imaginar que isso ocorre só quando ele está no semáforo? "Não, em movimento também. Na troca de marcha, controlando quem vem atrás, olhando se tem pedestre ou ciclista na via, avaliando se é preciso frear", diz, sem cerimônia.

Tanta confiança, segundo Felipe, deve-se aos seis anos de habilitação e a conhecer "de cor e salteado" a posição das letras. "Digito sem olhar." E por que tanta mensagem? "Tenho plano ilimitado de torpedo e internet." Ele garante ainda não ficar confuso com o fluxo de dados em sua cabeça (veja ao lado). "Mas se é um assunto que exige mais, como trabalho, deixo para ver depois."

O estudante de Publicidade e Propaganda Douglas Abreu, de 19 anos, acaba de fazer um ano de carta. No início, mal digitava no farol vermelho. Mas foi só pegar confiança para deixar de resistir a ver o que chega - via torpedo, Facebook, Twitter, WhatsApp e BBM (chats do iPhone e BlackBerry), Gtalk (chat do Google) e até mesmo... e-mail, o avô das mensagens - e responder. "Em movimento, aperto uma letra e olho para a frente, outra e olho para a frente."

Já Anaïs Boutaud, de 20 anos, que ainda não tem carta, reconhece que o smartphone virou algo essencial, "que faz a pessoa estar sempre online". Ela, porém, é reticente com a troca de mensagens na direção. "Sei que nos Estados Unidos muitos jovens morrem por isso (leia abaixo)." Quer dizer que não vai ter esse comportamento quando puder dirigir? "Eu não garanto."

Extensão do corpo. Autor de dois livros sobre a chamada geração Y, aqueles nascidos após 1980, Sidnei Oliveira diz que não é privilégio dos mais jovens misturar celular e direção. "A diferença é que esse pessoal vem se preparando para ser multitarefa desde criança, vê a tecnologia como extensão do próprio corpo e tem excesso de confiança."

A designer Sandra Paduan, de 36, por exemplo, diz que escreve no trânsito unicamente quando para no semáforo ou congestionamento. "No tráfego é impossível, incompatível."

Um empresário de 30 anos que pediu para não ser identificado mudou hábitos depois de receber três multas na mesma semana por falar ao celular. "O trânsito de São Paulo é muito parado, era um jeito de aproveitar o tempo." Depois das autuações, diminuiu as conversas faladas - e aumentou as escritas.

Vício. O responsável pelo Núcleo de Dependência em Internet do Hospital das Clínicas, Cristiano Nabuco, diz que, em qualquer idade, estar conectado o tempo inteiro "gera uma sensação de pertencimento", que alimenta a vontade de se manter conectado. Ele prevê criar um núcleo só para viciados em smartphones no mês que vem.

Alternativas para amenizar os riscos do vício no trânsito já surgem, como carros com internet a voz. A opção "não perturbe", que a Apple deve lançar com o iOS 6, é outro passo. Por ora, especialistas concordam que uma resposta automática, ativada pelo usuário antes de dar a partida, já ajudaria. "Estou dirigindo, retorno depois." / DENIZE GUEDES

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