‘Só vou dar um tiro na cabeça do seu marido’

Policial estava com a mulher a filha dentro do carro, na zona sul, quando foi abordado

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2017 | 03h00

Era 6 de setembro quando o major Flávio César Fabri e uma dúzia de seus homens se preparavam logo cedo para capturar um matador de policial no limite entre Santo André e Mauá, na Grande São Paulo. Foram em três carros disfarçados. Cada veículo ficaria em um ponto, vigiando uma boca de fumo.

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Escondido atrás de vidros com uma película preta, Fabri levava uma escopeta com balas de borracha, caso houvesse confusão na ação. Colocou o colete à prova de balas, arrumou o estojo de primeiros socorros e ajeitou a pistola na cintura. Sobre o painel do carro, um binóculo e luvas. “Sob a proteção de Deus iremos e retornaremos”, disseram os policiais em voz alta ao saírem do quartel.

Sem ar-condicionado, teriam de ficar parados debaixo do sol e fechados nos carros, vigiando durante horas. Os primeiros 15 minutos foram fáceis. Depois, o ar começou a pesar, o suor a escorrer pelo rosto e a camisa a colar no corpo, debaixo do colete à prova de balas. Tudo ficou abafado. Para não despertar a suspeita de quem passava ao lado, o silêncio tinha de ser absoluto. A 50 metros dali, homens do tráfico de drogas vigiavam.

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Investigar, localizar o suspeito e prender é uma rotina para o capitão Ricardo Salvi, que estava com o major. Ele se lembra de um desses casos: “O policial estava com a mulher e a filha na cadeirinha, no banco traseiro, quando foi abordado na zona sul. Ele não reagiu porque estava com a família.” Apenas um dos bandidos estava armado, mas sua pistola desmuniciada, sem carregador.

O assaltante revistou as vítimas e achou a arma do policial. “A mulher disse ao ladrão: ‘Pelo amor de Deus, não mata meu marido’. E o bandido respondeu: ‘Fique tranquila. A gente não vai matar seu marido. A gente só vai dar um tiro na cabeça dele’. Ele matou o policial com a arma do PM.” Poucas horas depois, Salvi capturou os ladrões em um apartamento na zona sul. Estavam com o celular, a arma e os documentos do policial assassinado.

No dia 6 de setembro, a vigilância acabou às 17 horas. Salvi chamou o major pelo rádio. “Chefe, acho que podemos recolher o pessoal. Nosso ‘colaborador’ não apareceu.” Fabri concordou. “Um dia a gente pega esse cara. Temos paciência.”

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