Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Serviço de ônibus de SP tem avaliação pior, frota mais velha e alta de custo

Das 32 empresas que operam no sistema, apenas seis foram avaliadas com desempenho bom, segundo índice da própria SPTrans

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A qualidade da operação dos ônibus na cidade de São Paulo teve queda em avaliação feita pela São Paulo Transporte (SPTrans), órgão da Prefeitura que administra o sistema. A piora ocorre no ano em que a idade média da frota atingiu o patamar mais alto desde 2006, com coletivos com mais de 10 anos operando o serviço, além de redução do número total de viagens. 

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A avaliação mensal da operação dos coletivos é feita pela Índice de Qualidade do Transporte (IQT), uma nota que a SPTrans dá às empresas, considerando a quantidade de falhas , cumprimento de partidas programadas, limpeza e conservação de veículos. Essas notas são usadas no cálculo da remuneração das empresas. 

Entre as 32 empresas que operam no sistema, só seis foram avaliadas com desempenho bom em agosto, dado mais recente. Em janeiro, 20 tinham essa nota. O total de empresas com serviço regular subiu de 11 para 23 no período. Três tiveram nota ruim em agosto - era uma em janeiro. 

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A tradução desses números, segundo os passageiros, é o aumento da demora no tempo de viagem. “Antes, eu tomava só um ônibus para ir para o centro. Agora, tenho de tomar um ônibus, descer no Terminal Pirituba (zona norte), esperar por mais um ônibus e aí seguir viagem”, diz a dona de casa Vera Gomes, de 61 anos, moradora do Jardim Líbano, da zona norte, que usa o ônibus três vezes por semana para fazer um curso no centro. 

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“O problema maior é a demora”, afirma a estudante Emily Santos, de 18 anos, usuária da mesma linha. Segundo as planilhas da SPTrans, deveriam ser seis partidas por hora. Emily afirma já ter esperado 20 minutos por um coletivo.

Entre janeiro e agosto, dado mais recente, pelos coletivos da cidade houve 1,909 bilhão de viagens - cada viagem significa uma vez que a catraca é girada e, assim, a mesma pessoa pode fazer mais de um percurso. Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve queda de 22 milhões de viagens no sistema. Já o total de ônibus em circulação caiu de 14,7 mil veículos em janeiro para 14,4 mil no mês passado. 

O número de linhas canceladas na cidade também cresceu. No primeiro semestre, foram 33 linhas canceladas e 13 abertas. No mesmo período de 2016, foram 13 canceladas e outras 13 abertas. No total, a cidade tem 1.342 linhas. 

Os ônibus comuns estão com veículos mais velhos, com idade média da frota de seis anos. Pelos contratos originais da SPTrans com esses empresários, a cidade não poderia ter nenhum veículo com mais de 10 anos de idade em operação. Entretanto, basta ficar nos pontos e terminais da cidade para ver coletivos fabricados em 2006 - todos têm o ano de fabricação e o mês de entrada em operação escrito abaixo da janela do motorista. 

Apesar da queda do total de viagens e de veículos, o sistema tem ficado mais caro. O gasto da gestão João Doria (PSDB) com os subsídios para as empresas de ônibus entre janeiro e setembro deste ano foi R$ 337 milhões maior do que no mesmo período de 2016. Esse valor repassado pela Prefeitura complementa a receita obtida com a venda de passagens. A SPTrans espera reduzir essa diferença com o combate a fraudes no bilhete único e mudanças em gratuidades, como o passe estudantil. 

 

Contrato

A piora na avaliação e nos demais índices ocorre em meio a uma série de atrasos por parte da Prefeitura em lançar uma nova licitação para o serviço, que havia sido prometida para agosto. Os contratos vigentes são aditivos a acordos assinados em 2003, que se transformaram em contratos emergenciais assinados para o serviço não parar. A Prefeitura afirma esperar definição da Câmara Municipal para publicar os novos editais. 

Porta-voz dos empresários do setor, o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss), Francisco Christovam, relaciona o envelhecimento da frota à demora para realizar a nova licitação. “Tive hoje (ontem) uma reunião com o BNDES (o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para tratar disso. O problema é que não temos contrato vigente, os nossos terminam no fim do ano. Assim, não temos garantias para oferecer aos bancos quando buscamos financiamento para a compra de veículos novos”, afirma. “Empresário não gosta de ônibus velho. Dá mais manutenção, aumenta os custos.”

Para ele, “os dados mostram a consequência e não a causa” dos problemas. Christovam cita o alto número de buracos no asfalto como fator que faz com que ônibus atrasem. Fala ainda da alta quantidade de semáforos queimados, que também deixa veículos presos no trânsito. Além disso, ele pondera que a redução dos coletivos em circulação não significa necessariamente prejuízo ao passageiro, uma vez que ônibus comuns podem ter deixado de circular para dar lugar a veículos articulados.

Professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o engenheiro Cláudio Barbieri destaca dois aspectos negativos da substituição do ônibus para o articulado. “Primeiro, o passageiro tem de esperar mais no ponto”, afirma. “Além disso, os ônibus articulados não são feitos para todas as vias. Tem lugares que, para fazer a curva, eles têm de bloquear até três faixas”.

Barbieri diz ser possível que buracos e semáforos quebrados prejudiquem. “A questão é descobrir o quanto atrapalham.” 

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Há 709 veículos novos e maior oferta de lugares, diz SPTrans

O presidente da São Paulo Transporte (SPTrans), Carlos Martinelli, afirma que a avaliação das empresas de ônibus é cíclica e que há períodos em que as notas podem baixar. “É preciso considerar a tendência.”

Ele diz que, em 2011, as empresas atendiam a 63% dos requisitos exigidos no Índice de Qualidade do Transporte (IQT) e que, na avaliação do último ciclo, o primeiro semestre deste ano, o porcentual foi de 75%. O presidente afirma ainda que a SPTrans adotou uma tolerância de um ano a mais para a idade máxima dos coletivos, para 11 anos. E reconhece que a medida se fez necessária pelo fato de as empresas não terem como dar garantias aos bancos para financiar veículos novos. 

Sobre a licitação do sistema, ele reconheceu que não há data para os novos editais. “A Câmara precisa definir a questão das emissões.” Ele se refere ao debate sobre a Lei de Mudanças Climáticas, de 2009, que previa ônibus sem poluentes no ano que vem. O prazo será revisto agora pelos vereadores. 

Martinelli afirma que 709 ônibus novos entraram em operação neste ano e que a redução da frota operacional (a usada diariamente), teve redução menor, de 160 carros. “A oferta de lugares passou de 628.277 para 630.285 em função da troca de veículos com maior capacidade. O corte de linhas, diz ele, racionaliza o sistema. /COLABOROU PRISCILA MENGUE

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