Serial killer se enforcou na cela, afirma polícia

Acusado pela morte de seis jovens de Luziânia, Adimar de Jesus da Silva teria usado tecido de colchão para cometer suicídio

Rodrigo Rangel de Brasília, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2010 | 00h00

Oito dias após ser preso e confessar os assassinatos de seis jovens em Luziânia (GO), a 58 quilômetros de Brasília, o pedreiro Adimar Jesus da Silva foi encontrado morto ontem, em uma cela da Delegacia de Repressão a Narcóticos (Denarc) de Goiânia. A Polícia Civil informou que ele se enforcou com uma corda improvisada com tecido de colchão.

De acordo com a delegada titular da Denarc, Renata Cheim, eram 12h45 quando outros presos da delegacia pediram que os policiais fossem à carceragem. Os detentos, que ocupam uma cela vizinha ao cubículo de 3 metros quadrados onde Adimar estava isolado, tinham acabado de ter uma longa conversa com o pedreiro. Encostado na grade da cela, Adimar contara, friamente, detalhes dos assassinatos. De repente, parou de falar e ligou o chuveiro.

O repentino silêncio do pedreiro e o som da água batendo direto no chão, ecoando no corredor onde minutos antes se ouvia o relato do serial killer, chamaram a atenção dos 12 detentos da cela próxima. Assim que os plantonistas chegaram, encontraram o corpo do preso.

Adimar estava dependurado na grade da pequena janela da cela. Para se enforcar, disse a delegada, o pedreiro usou o viés do colchão que lhe fora entregue ao chegar à carceragem.

Pelos relatos que a delegada ouviu dos presos, Adimar começou a planejar o suicídio na véspera. Os detentos disseram ter ouvido um barulho diferente no sábado. Depreenderam que ele estava rasgando tecido. Um investigador contou ao Estado que um dos detentos perguntou a Adimar o que ele estava fazendo e se estava pensando em se matar. O pedreiro negou.

Último dia. A cela onde estão outros presos não dá vista para a solitária de Adimar, mas, desde sua chegada, no dia 10, eles costumavam conversar. Ontem, pelos depoimentos dos presos, Adimar acordou bem disposto e almoçou duas marmitas.

Ao contar aos companheiros de prisão o que fizera com os garotos de Luziânia, afirmou ter violentado todos eles e negou participação na morte de sua ex-mulher.

A frieza do relato impressionou os presos. Cláudio Tomás, detido há 30 dias por suspeita de associação ao tráfico, afirmou à delegada que Adimar roncava e comia bem. "Como alguém que matou tanta gente consegue viver assim?", indagou à delegada.

Perguntada se não teria havido omissão da polícia, Renata foi enfática: "Se não tivéssemos dado o colchão e ele dormisse no chão, os movimentos de direitos humanos reclamariam".

Investigação. Um inquérito foi aberto para investigar as circunstâncias da morte de Adimar. Os depoimentos dos presos foram acompanhados pelo delegado-corregedor da Polícia Civil, Sidney Costa e Souza, e por um promotor de Justiça.

Hoje, vídeos do circuito interno de tevê devem ser anexados à investigação. A delegada afirmou que a última pessoa a entrar na cela antes de o corpo ser encontrado foi o entregador de marmitas, acompanhado de um carcereiro. "Não há dúvida de que foi suicídio."

Reações. De Luziânia, a mãe de um dos garotos mortos, Valdirene Fernandes da Cunha, de 37 anos, lamentou a morte do pedreiro porque, vivo, ele poderia ajudar a elucidar o que, para ela, não está bem explicado. "Acredito que ele não cometeu os crimes sozinho. Se ele se matou, é porque tinha certeza de que não teria o perdão."

Para o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), integrante de uma comissão que foi a Goiânia ouvir o depoimento de Adimar, houve erro do poder público. "É difícil impedir uma pessoa que quer se matar, mas, nesse caso, o Estado falhou de novo."

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