Sem-teto ocupam Viaduto do Chá e dois prédios no centro

No total, cerca de três mil pessoas participaram das invasões na madrugada; condições de vida nos [br]imóveis são precárias

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2010 | 00h00

Integrantes da Frente de Luta por Moradia (FLM) decidiram manter a ocupação iniciada na madrugada de ontem no Viaduto do Chá e em dois prédios do centro de São Paulo. A decisão foi tomada após reunião com a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab). Já no terreno ocupado no M" Boi Mirim, zona sul, as famílias saíram após ação de reintegração de posse.

Cerca de 2.650 pessoas participaram da ocupação inicial nos locais. À zero hora de ontem, um grupo ocupou o terreno no M"Boi Mirim e outros dois ocuparam o Edifício Prestes Maia, próximo à estação da Luz, e um prédio do INSS, na Avenida Nove de Julho. Muitas já haviam integrado ocupações anteriores nos mesmos edifícios. Por volta das 4h30, moradores da zona leste montaram um grande barraco no calçadão do Viaduto do Chá, ao lado da Prefeitura.

As principais reivindicações são as desapropriações dos dois prédios e de outros dois edifícios no centro. Um deles, na Rua Mauá, está ocupado há mais de dois anos. O outro, na Avenida São João, já foi desapropriado, mas acabou reocupado pela antiga dona. Segundo o coordenador geral da FLM, Osmar Borges, a situação dos prédios abandonados no centro já virou "novela". "É uma situação que tem de se resolver, não dá mais para ficar enrolando."

Para Borges, a iniciativa de desapropriar 53 prédios no centro, decretada pela Prefeitura em fevereiro, deveria estender-se a outras regiões. "Se usarem todos os imóveis devedores de IPTU para moradia popular, já é um começo."

Na zona leste, a reivindicação é desapropriar um terreno de 1 milhão de m² no bairro Alto Alegre, ocupado por oito meses em 2009. Na zona sul, o movimento pede a desapropriação do terreno em M"Boi Mirim e o início das obras em áreas desapropriadas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) na Rua Ana Aslam, para atender às 840 famílias retiradas de uma favela.

Na reunião de três horas e meia com a Sehab, a FLM pediu também a revalidação e revisão de valores das cartas de crédito concedidas a ex-ocupantes do Prestes Maia. A aposentada Romilda da Silva, de 67 anos, voltou a ocupar o prédio ontem. Ela já renovou duas vezes a carta de R$ 48.900 e não encontra moradia. "O valor do imóvel é sempre mais alto", lamenta.

Segundo Borges, a maioria das reivindicações está relacionada à CDHU e o próximo passo é tentar conversar com o secretário de Estado da Habitação, Lair Krähenbül. "Em São Paulo, só é possível fazer moradia para famílias de 0 a 3 salários mínimos se tiver parceria entre as três esferas de governo."

Em nota, a Sehab informa que há itens na pauta de reivindicações "que dizem respeito ao Governo Federal e ao Estadual, sobre os quais a Prefeitura não tem poder para interferir". Segundo a nota, foi acordado, "sob o comprometimento" de o movimento desocupar os imóveis e o Viaduto do Chá, que "a Prefeitura vai colaborar junto aos órgãos estadual e federal na negociação do atendimento de parte das reivindicações". A nota diz que "caso os movimentos insistam em manter as invasões, a Prefeitura se isentará das responsabilidades". O prefeito Gilberto Kassab (DEM) afirmou ontem que o problema da habitação na cidade tem "uma dimensão muito grande". Para haver disciplina, temos de estabelecer prioridades: quem será atendido no momento certo, no momento adequado e em quais investimentos." A CDHU informou que ainda não havia sido informada oficialmente das reivindicações. / COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

Ocupações

1.500 pessoas

ocuparam o Viaduto do Chá

650

ocuparam dois prédios no centro e outras 500 invadiram terreno na zona sul

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