Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Sem-teto fazem série de invasões em São Paulo

Segundo a Frente de Luta por Moradia (FLM), um total de 16 imóveis, a maior parte no centro, foi ocupado; PM confirma 8 

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 08h19

Atualizada às 18h09

SÃO PAULO - Cerca de 2 mil famílias da Frente de Luta por Moradia (FLM) fizeram uma série de invasões em todas as regiões da capital paulista entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira, 13. Ao todo, 16 imóveis chegaram a ser ocupados pelos sem-teto, mas em dois deles o grupo foi retirado pela Polícia Militar, segundo afirma o movimento. Por sua vez, a corporação só confirma oito invasões.

Os grupos foram mobilizados pela FLM para darem início simultaneamente às ocupações por volta da meia-noite. A operação durou cerca de dois meses para ser organizada. Dos imóveis invadidos, dez estão localizados no centro da cidade, onde o movimento já coordenava 23 ocupações. Os sem-teto tomaram, ainda, outros dois prédios na zona norte, um na zona sul e um na zona leste. Além desses, a FLM lidera cinco invasões em terrenos de São Paulo. 

Na Rua José Bonifácio, próximo à sede da Secretaria de Segurança Pública (SSP), houve confronto entre sem-teto e policiais militares, que usaram bombas e balas de borracha para tentar impedir duas invasões no local. Os dois prédios pertencem ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). De acordo com a FLM, uma senhora de 62 anos ficou ferida por estilhaços. Pedras arremessadas por integrantes do movimento também quebraram o para-brisa de um carro. Apesar do conflito, os sem-teto não saíram e armaram barricadas com grades e barras de ferro nas entradas.

Na Avenida Barro Branco, na região do Jabaquara, zona sul, os sem-teto ocuparam um imóvel, mas acabaram expulsos durante a madrugada. Já na Rua Raimundo da Cunha Matos, na zona norte, o grupo teve de sair do prédio no início da manhã desta segunda. "Existe um dispositivo que permite ao proprietário solicitar, em até 24 horas, aparato policial para retirar as famílias sem judicializar o pedido de reintegração", explicou Helô Soares, coordenadora da FLM.

Por causa desse prazo, o clima nas demais ocupações era de apreensão. Cerca de 220 famílias se mudaram para um prédio na Rua da Consolação. Entre elas, a do autônomo Aparecido Barros, de 57 anos, que levou a mulher e um neto de 11 anos. "A única forma de eu conseguir um lugar para morar é lutando", diz. Segundo afirma, sua renda mensal é de cerca de R$ 1 mil. "Se eu pagar aluguel, não tenho dinheiro para viver."

Despejada há uma semana, a doméstica Cida Rodrigues, de 56 anos, cita o mesmo motivo. Ela mora com sete filhos, o mais velho de 18 anos; o mais novo, de sete. "Enquanto não tinha onde morar, fui deixando cada um dos meninos na casa de uma amiga diferente. Aqui, pelo menos, fica todo mundo junto."

Na Rua XV de Novembro, também no centro, cerca de 180 famílias tomaram um prédio de nove andares. As famílias se espalharam pelos pavimentos, ainda sem luz, levando apenas colchonetes, cobertores e algumas roupas. À tarde, o espaço também era dividido por dezenas de crianças, que brincavam no local.

"Não tem banheiro direito, não tem quarto para todo mundo. A gente só vem para cá porque precisa", diz a doméstica Marta dos Reis, de 34 anos, ex-moradora do Hotel Aquarius, na Avenida São João, objeto de uma reintegração de posse, no ano passado, que acabou com nove presos e 75 detidos. "Se essa (ocupação) não der certo, eu vou ter de dormir na rua."

Imóveis na Rua Augusta, Coronel Xavier de Toledo, Conselheiro Crispiniano, Conselheiro Furtado e Visconde de Parnaíba também foram alvo dos sem-teto. A FLM afirma que os locais estavam vazios e eram usados para "especular e elevar ainda mais os preços na nossa cidade". O movimento diz preferir prédios da região central por causa da maior oferta de escolas, creches, equipamentos de saúde, além da facilidade de transporte.

TRE-SP. Os prédios pertencentes ao TRE-SP foram invadidos por cerca de 250 integrantes da FLM. Segundo o Tribunal, os imóveis estão passando por reformas para abrigar algumas unidades administrativas.

Onze carros da frota do TRE-SP ficaram presos em uma das invasões e só foram retirados durante a manhã. Segundo o Tribunal, os seguranças foram dominados pelos invasores.

O Tribunal informou que está "tomando as providências cabíveis" para a reintegração de posse. Segundo a Assessoria de Comunicação Social do TRE, foram anotados relatos de arrombamento de portas e destruição de câmeras de vigilância.

Prefeitura. O prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) afirmou que é  preciso "respeitar" a prioridade das famílias na fila por habitação. Haddad garantiu que tanto em terrenos públicos quanto em privados haverá reintegração de posse dos prédios ocupados pela FLM e também descartou uma visita da Prefeitura para fazer cadastramento nos imóveis.

"Não precisa ocupar nenhum terreno para pedir o cadastramento", disse o prefeito na manhã desta segunda, em evento na Praça das Artes. Para Haddad, São Paulo vive um momento "bastante tranquilo em relação aos movimentos".

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