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Secretário acusa MPL de ‘acobertar’ black blocs e vai investigar ativistas

Alexandre de Moraes afirmou que a suposta ligação entre os dois movimentos será apurada pela polícia; grupo nega relação

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Felipe Resk,
O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A Polícia Civil vai investigar a suposta relação entre integrantes do Movimento Passe Livre (MPL), responsável por organizar atos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, com os black blocs, o braço violento dos protestos. O secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, acusou nesta quarta-feira, 13, o MPL de “acobertar” os mascarados. O movimento afirmou que a alegação “não faz sentido” e que faz parte da estratégia do Estado de criminalizá-los.

Os black blocs ficaram conhecidos após protagonizarem cenas de depredação e de confrontos com policiais militares nos protestos. No primeiro ato deste ano, no dia 8, adeptos da tática quebraram agências bancárias, ônibus e telefones públicos. Está marcada para esta quinta-feira, 14, nova mobilização, no Largo da Batata, na zona oeste, e na frente do Teatro Municipal, no centro.

Segundo Moraes, os mascarados que forem detidos em manifestações serão indiciados por organização criminosa – como acontece quando é preso um integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo.

Apesar de black blocs estarem presentes em manifestações do MPL, o movimento afirmou que organiza protestos pacíficos e sempre tentou dissociar sua imagem dos manifestantes mais violentos. De acordo com Moraes, porém, os dois grupos estariam relacionados. “As lideranças do Movimento Passe Livre acobertam os black blocs. As lideranças têm ligação com essas pessoas e isso será investigado”, afirmou.

Luíze Tavares, porta-voz do MPL, afirma que a acusação do secretário “não faz sentido”. “Está tudo errado na fala. O Passe Livre não tem liderança, é um movimento horizontal, e black bloc não é um grupo, é uma tática”, disse. “Não é papel do MPL ficar criminalizando pessoas nem criando um perfil do manifestante bom e do ruim.”

Para Luíze, a acusação faria parte de uma estratégia do Estado de tentar criminalizar o MPL desde 2013, ano marcado por grandes protestos. “Qualquer pessoa que queira lutar contra o aumento da tarifa continuará sendo bem-vinda”, disse.

Organização. O secretário também afirmou que os 30 manifestantes detidos nos dois últimos atos continuarão sendo investigados. Dos 13 detidos na terça, 11 foram liberados nesta quarta. Nos inquéritos policiais, os black blocs serão tipificados como membros de organização criminosa. Em investigações anteriores, eles eram enquadrados por associação criminosa, crime com punição mais branda, usada para quadrilhas de roubo, por exemplo.

A Justiça considera organização criminosa quando quatro ou mais pessoas se reúnem para cometer infrações penais e apresentam estrutura ordenada, com divisões de tarefas, mesmo que informalmente. Já a associação criminosa é quando há união de três ou mais pessoas para cometer crimes, mas não são estruturalmente organizadas. A pena por associação é reclusão de um a três anos, enquanto para organização é de três a oito anos.

“De 2013 até agora, temos imagens e dados de internet que eles (black blocs) se constituíram em uma organização criminosa que quer o vandalismo e quer atacar a polícia”, disse Moraes. “Já há vários inquéritos instaurados e encaminhados ao Ministério Público.” 

Por sua vez, o MPL acusa a polícia de violência e diz que 24 pessoas ficaram feridas na Paulista. A mãe do estudante Gustavo Camargos, de 19 anos, a advogada Ana Amélia Camargos, disse que vai processar o Estado. Atingido por estilhaços de bomba, o jovem sofreu fratura exposta no polegar, quebrou ossos da mão e rompeu um tendão.

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