São Paulo: o Líbano da América

Cidade tem hoje 2 milhões de 'brimos', a maior comunidade fora do Oriente

Vitor Hugo Brandalise / TEXTO e Keiny Andrade e Tiago Queiroz / FOTOS, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2010 | 00h00

Naquela tarde de setembro de 1950, a nova terra lhe pareceu linda. "Matas verdes cortavam a cidade, os pássaros vieram nos dar as boas vindas", escreveu a jovem libanesa Jeanette Bitar Yazbek, aos 18 anos, logo que avistou seu novo país. Nas letras miúdas do diário de viagem, palavras de saudade: "Como ficou longe o meu Líbano, após 25 dias de mar e céu". E reminiscências do lar: "A montanha me lembrou aquela que ficava atrás da casa da minha avó". Eram paisagens distantes, mas que ela tentava, insistente, aproximar entre si - tentava encontrar semelhanças, em sentimento comum a imigrantes, entre a nova terra e o velho lar, que agora ficava para trás.

Ao deixar a aldeia de Gibrail, no norte do Líbano, para vir a São Paulo, Jeanette - mãe do dramaturgo e diretor teatral Samir Yazbek - fez parte da segunda grande leva de imigrantes libaneses que chegaram ao País, entre 1940 e 1950, num movimento migratório que começou oficialmente em 1880, exatos 130 anos atrás.

"Foi uma migração acompanhada de um grande sacrifício. Minha mãe falava de choques em todos os sentidos: língua, religião, trabalho, forma de se expressar, tudo", conta Yazbek, de 42 anos, guardião do diário de sua mãe, morta em 2003. "Tiveram de passar por uma adaptação difícil. Saíram de um território pequeno, montanhoso e enevoado, e desembarcaram num país tropical com dimensão de continente. Lembro das dificuldades, mas também da esperança com que falavam daqueles tempos."

Para comemorar os 130 anos de histórias como a de Jeanette, a Associação Cultural Brasil-Líbano promove uma série de eventos na capital, que seguem até novembro. Haverá exposições com fotografias do Líbano e documentos de imigrantes pioneiros, apresentações teatrais, palestras sobre a relação entre os dois países, além de lançamento de selo comemorativo pelos Correios e de bilhetes de loteria em homenagem ao Líbano.

"É um momento de reflexão sobre o papel dos libaneses e seus descendentes no Brasil. Servirá para avaliar a contribuição deste povo, além de fazer lembrar da terra da qual nossos antepassados tanto sentiram falta", diz a presidente da Associação Cultural Brasil-Líbano, Lody Brais. "Foi mais um povo sofrido que venceu neste País. Temos de ressaltar sua importância."

Colônia. Atualmente, estima-se que 7 milhões de libaneses e descendentes vivam no Brasil - são resultado de migração que começou após visita do Imperador d. Pedro II a Beirute, na qual convidou camponeses a trocar o montanhoso País, de escassas terras férteis, por um Brasil que iniciava sua urbanização.

Alguns vieram como lavradores - especialmente para os Estados do norte, participando do ciclo da borracha -, mas logo se distinguiram pela capacidade de negociação e pelo tino comercial. "Ocuparam um espaço deixado vago pelos imigrantes europeus, que vieram principalmente como lavradores. Primeiro como mascates, e depois com lojas e armazéns, os libaneses se firmaram como povo essencialmente negociador", afirma Aida Hanania, professora de Cultura Árabe da USP. "É um povo com comércio no sangue desde o ano 3.500 A. C., quando os fenícios, maiores comerciantes do mediterrâneo, desembarcaram no Líbano. É, portanto, uma tradição milenar trazida para o Brasil."

Capital libanesa. Confundidos historicamente com "turcos" - porque, até a década de 1920, havia apenas um tipo de passaporte para todos os habitantes do Império Otomano, do qual o Líbano fazia parte -, cerca de 3 milhões libaneses e descendentes vivem hoje no Estado de São Paulo. "Somente na capital, são cerca de 2 milhões. Isso faz a cidade ter a maior concentração de libaneses fora do Líbano", afirma Lody Brais.

Um passeio pela herança libanesa em São Paulo compreenderia pontos históricos da capital - como as seis mansões da família Jafet (libaneses que chegaram à capital em 1887, e onde abriram uma tecelagem), no Ipiranga, zona sul; a Rua 25 de Março, símbolo do comércio popular, cujos primeiros armarinhos foram propriedade de libaneses; quatro esculturas, em homenagem ou oferecidos pela comunidade libanesa - como a estátua de José Bonifácio, na Praça do Patriarca, no centro; um dos hospitais-referência na capital, o Sírio-Libanês, fundado por "senhoras descendentes" dos dois países em 1921 e inaugurado em 1940; além de oito clubes e cerca de 100 restaurantes e bares na cidade.

"Brimos". Com dificuldades em pronunciar letras do alfabeto ocidental, como "P" e "V", e pela característica de virem ao País influenciados por parentes que chegaram antes, é comum entre membros da colônia o tratamento "brimos" - característica que serve, também, para exemplificar a impressão de que se trata de povo afetuoso.

"Aprendi, por meio da cultura árabe, as maiores noções de respeito pelas outras pessoas, e de carinho entre amigos e família", afirma o médico Raul Cutait, diretor do Sírio-Libanês entre 1990 e 2005, e cujo avô, Elias, participou do primeiro ciclo migratório, em 1887. Em sua última visita ao Líbano, em 2006, Raul, fundador do Instituto de Pesquisa do Sírio-Libanês, recebeu a comenda D"Or, mais alto grau de reconhecimento do governo libanês. "Sou descendente de um povo hospitaleiro, afetuoso e gentil."

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