Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Rio tem ‘paraíso litorâneo’ para 3.200 micos-leões

Espécie ainda está ameaçada de extinção, mas ganhou espaço nas matas de Silva Jardim; desafio agora é aumentar a área de floresta

Clarissa Thomé/RIO, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 19h13

 Nos anos de 1980, era preciso andar por dias na mata de Silva Jardim, município da baixada litorânea, a 110 quilômetros da capital, para avistar um mico-leão-dourado. Só havia 200 soltos na natureza, alertava o primatólogo Adhemar Coimbra Filho. A intensa mobilização para salvar a espécie, só encontrada na região, mudou o cenário: hoje são 3.200 bichos, em oito municípios, aponta o levantamento mais recente da Associação Mico-Leão-Dourado (AMDL), que se dedica há 22 anos à preservação.

O desafio agora é outro: os micos precisam de florestas. Confinados em “ilhas” de mata, isoladas por pastos, correm riscos como a escassez de alimento, briga por território e consanguinidade. Os 200 micos identificados por Coimbra Filho viviam em 3 mil hectares de mata. A meta da AMDL era chegar a 2 mil animais, vivendo em 25 mil hectares até 2025. O número de micos foi além, mas eles estão espalhados em apenas 12,5 mil hectares. E ainda disputam espaço com saguis, espécie trazida da Bahia, espalhada na região. 

“Nosso maior problema é a falta de floresta para os micos-leões-dourados. O ambiente é extremamente degradado e os remanescentes florestais estão muito fragmentados. Precisamos plantar floresta. O número de animais é indicador positivo. Mas para garantir a sobrevivência, a longo prazo, o ambiente tem de estar recuperado e ter condições de ele sobreviver, independentemente da associação e de todos os parceiros”, diz o geógrafo Luís Paulo Ferraz, secretário executivo da AMLD. 

Para chegar aos 3.200 micos, foi necessário mobilizar zoológicos de outros países. Cento e cinquenta animais que viviam em cativeiro foram enviados para Silva Jardim e reintroduzidos ao longo das décadas. Os primeiros animais foram soltos na Reserva Biológica de Poço das Antas. “A mata em volta da Rebio estava sendo convertida em pastos, com caminhões levando as árvores para servir de lenha nas cerâmicas do Rio. Os micos eram capturados para o mercado ilegal de ‘pets’”, lembra a educadora americana Lou Ann Dietz, uma das fundadoras da AMLD, ao lado do marido, o biólogo James Dietz. 

Ela conta que a reintrodução foi um processo “caro, longo e difícil”. “Os micos de zoológicos nem sabiam pular entre os galhos das árvores; acabaram descendo para o chão, onde ficavam vulneráveis. Eles se perderam na mata e os monitores tiveram de mostrar o caminho utilizando bananas como isca. Eles não reconheceram as frutas nativas ou predadores como cobras.”

Deus. Hoje, os micos sabem que não podem ficar no chão são presas fáceis para predadores. É por isso que os pastos os deixam isolados. Uma fêmea, expulsa da convivência da família ao chegar à adolescência, está isolada há um ano na Fazenda Afetiva – outros machos não conseguem chegar até a área em que ela está. A bióloga Andreia Martins, que se dedica aos micos há 31 anos, se prepara para mudá-la de ambiente. “A gente fica brincando de Deus. Nosso cenário de conservação é o pior dos mundos”, afirma Ferraz. 

Além do isolamento pelos pastos, os micos estão em risco por causa da duplicação da BR-101, que terá 25 metros de pista. Cerca de 450 ficarão isolados na Rebio de Poço das Antas. A AMLD luta agora para que a concessionária Autopista construa um viaduto com cobertura vegetal, para que possam se locomover. 

O professor Carlos Ruiz, do Departamento de Biociências da Universidade Estadual do Norte Fluminense, afirma que os micos-leões-dourados continuam em risco de extinção. “A região tem matas suficientes, mas em propriedade particular e não estão conectadas. Não temos problema hoje de superpopulação em nenhum lugar, mas daqui a uns anos teremos esses problemas, que resultam em animais expulsos de território, escassez de alimento.” 

Para “ligar” as ilhas de matas, a AMDL estimulou a criação de viveiros por agricultores da região. Já são sete, com capacidade de produzir até 50 mil mudas ao ano, cada um. A instituição também tem parceria de proprietários rurais – Silva Jardim tem 22 Reservas Particulares do Patrimônio Natural, modalidade de unidade de conservação. Muitos também permitem o plantio de árvores, para a formação de corredores florestais.

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