Relatos de quem viveu grandes desastres

O temporal recorde que atingiu o Rio na semana passada, quando choveu 288 milímetros em 24 horas, trouxe a lembrança de tragédias semelhantes, que marcaram a cidade nas últimas décadas e fizeram a população contar seus mortos às centenas. O Rio havia registrado os maiores índices pluviométricos da sua história em 1966, 1988 e 1996: 245 mm, 230 mm e 201 mm, respectivamente. O Estado localizou cinco personagens que vivenciaram histórias dramáticas em períodos diferentes.

Clarissa Thomé /RIO, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2010 | 00h00

José Raimundo dos Santos, de 54 anos, é um dos sobreviventes dessas enchentes. Nos anos 90, havia deixado a Favela Cidade de Deus, na zona oeste, para tentar a sorte numa ocupação vizinha, Rocinha 2. Mas ficaria ali apenas um par de anos. Em fevereiro de 1996, o valão de esgoto encheu e a água tomou as casas. "Tinha deixado a minha filha na casa da mãe e fui pego pela chuva na rua. A água arrastava tudo. Vi passar geladeira, cavalo, gente boiando", conta. Santos viu duas moças tentando tirar cinco crianças da enchente. "Uma delas estava de barriga (grávida). Subi numa amendoeira e puxei todo mundo para cima. Até hoje, tenho a maior fé em amendoeira."

Passaram a noite inteira no alto da árvore. Dali viram as pessoas desistirem de lutar contra a força das águas. Os corpos passavam boiando por eles. "Um sargento bombeiro veio na minha direção. Ainda tentei segurá-lo, mas já estava morto."

Santos desceu da árvore pela manhã e ainda encontrou água na altura do peito. Procurou ajuda para retirar a grávida e as crianças dali. E começou a contar os amigos mortos: "Blecaute, Magrinho, Waldemiro, que era "paraíba". O Roberto, a mulher e os dois filhos estavam dentro de casa. Ele foi teimoso. Queria salvar o "bujão" de gás. Ao todo, empilhamos 14 corpos numa pontezinha", relata.

Santos perdeu as roupas, o barraco de madeira e todos os documentos. Até hoje não tem identificação. "Deixei para lá. Nunca mais tirei."

Baldes. Ele morou em escola, recebeu roupas de donativos, foi transferido para um barraco de madeira na Estrada dos Bandeirantes, onde morou "um ano e pouco", até a prefeitura construir um conjunto habitacional que ficou conhecido como Conjunto Cesar Maia. "Quando vim para cá não tinha fiação, não tinha água. O caminhão-pipa vinha e era briga. Só podia pegar dois baldes."

Hoje, Santos vive numa casa de alvenaria, do tipo quitinete. Não enfrenta enchentes. Mas ainda sente falta da Rocinha 2. "Achava melhor na invasão. Era um terreno grande, onde eu plantava mamão, coco. O dono ia passar o terreno para o nosso nome. Só não passou por causa da inundação."

A dona de casa Marlete da Silva, de 56 anos, também morava na Rocinha 2. A casa dela já havia sido destruída numa chuva mais forte. Ela e o marido reconstruíram o barraco de madeira. No dia 13 de fevereiro de 1996, fugiu para a casa de uma irmã antes da inundação. Desta vez não conseguiu salvar nada. Foi parar na Fazenda Modelo, abrigo de mendigos.

"Foi horrível. Misturaram a gente com os mendigos. Fazíamos as refeições todos juntos. Eu sentia fome, mas não conseguia comer", lembra. No abrigo, as famílias ficavam divididas por cortinas. Marlete, o marido e os quatro filhos (com idades entre 9 e 4 anos) viveram nove meses lá. Até a mudança para o Conjunto Cesar Maia.

Documentário. O drama da inundação ficou tão marcado na memória dos moradores da região que inspirou os cineastas Julio Pecly e Paulo Silva. Eles estão finalizando o longa-metragem 13 de Fevereiro, documentário sobre as famílias que viveram a tragédia. "As cenas daquele verão de 1996 marcaram muita gente. São pessoas traumatizadas até hoje", diz Silva.

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