Fernando Granato, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

O fogo ardeu nas montanhas no inverno passado, como ocorre há décadas nos morros que partem do Vale do Paraíba, divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro. A vítima foi a Serra da Bocaina, na altura de Bananal, a 326 km da capital. Em setembro, 1,2 mil hectares foram destruídos, e uma estação ecológica, que protege área remanescente de Mata Atlântica, quase foi atingida. Mas não foi só ali. 

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que setembro foi o mês recordista de queimadas no Brasil em toda a série histórica, iniciada em 1999: foram 95 mil registros em apenas 22 dias. De janeiro a dezembro foram 273 mil focos, número 50% maior do que o registrado em 2016. 

O fenômeno já chamava a atenção de um jovem fazendeiro no início do século passado. De tal maneira que, em agosto de 1914, ele chegou a enviar para a seção Queixas e Reclamações do Estado uma carta alertando para o que classificava como uma das principais causas do empobrecimento do solo. Seu nome: Monteiro Lobato. 

No texto, publicado em 12 de novembro de 1914, estava o embrião de Urupês, livro que Lobato lançaria quatro anos depois. “A Serra da Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa”, escreveu o jovem autor, referindo-se à 1.ª Guerra, que tomava conta do continente europeu. 

No texto, intitulado Velha Praga, aparecia pela primeira vez aquele que Lobato considerava o agente causador desses sucessivos desastres: “Nossa montanha é vítima de um parasita”, disse. “Esse funesto parasita da terra é o caboclo, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças”. 

Passados mais de 100 anos, a prática da queimada para “limpar” o solo para o plantio diminuiu, mas não acabou. “Até hoje a gente ainda acha gente colocando fogo porque acredita que a terra fica mais produtiva”, diz Ronaldo Monteiro, que atua na Polícia Ambiental, em Bananal. 

Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, prefeitura, Fundação Florestal e voluntários atuaram no combate ao fogo em setembro. A prefeitura decretou estado de emergência. Com a medida, ficou autorizada a convocar munícipes para reforçar as ações, a realizar campanhas de arrecadação de recursos e a entrar nas casas da região, seja para prestar socorro ou determinar evacuação. 

“Era todo mundo com baldes e mangueiras nas mãos para salvar nossa cidade”, lembra Maria Aparecida Silva, de 50 anos, uma das que se apresentaram para trabalhar contra as chamas. Em novembro, ainda havia vestígios de fogo, apesar das chuvas. Orlando Bispo Alves, de 70 anos, que planta para o consumo numa pequena propriedade vizinha à área consumida pelas chamas, disse ser contra as queimadas, mas admitiu conhecer muitos que ainda as praticam. “Eles queimam para limpar uma pequena parte, mas vai queimando, queimando até atingir esse mundão inteiro.”

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Fernando Granato / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

O olhar continua desconfiado. As vestimentas são as mesmas: botina, calça e camisa esgarçados, chapéu de abas largas. Em vez de agregado, ele agora é funcionário. Na choupana, ainda reinam o fogão, a lenha e o banquinho de três pés. Do lado de fora, uma antena parabólica denuncia a modernidade. Nos bolsos, nada de telefone celular. Aí seria demais.

O caipira do século 21 permanece nas terras da Buquira, a fazenda do Vale do Paraíba que já foi do escritor Monteiro Lobato e lhe serviu de cenário para seu primeiro livro, Urupês, cujo conto inicial foi publicado nas páginas do Estado. No livro, aparecia pela primeira vez a figura do Jeca Tatu, descrito como uma espécie de “piolho da terra”.

Às vésperas da comemoração do centenário do livro, lançado em 1918, o Estado percorreu trilhas do conto. E na própria Buquira, hoje desmembrada em várias pequenas propriedades, encontrou Antônio Donizete, de 41 anos. “Estou acostumado na roça, não quero sair daqui não”, diz. “Faço meu roçadinho, vivo sozinho cuidando da terra do patrão. Não penso em outra vida.”

Como o personagem de Lobato, são poucos os motivos que fazem Donizete deixar a fazenda. Um deles é o dia de eleição. “Votei na prefeita”, lembra ele, referindo-se à última eleição na pequena Monteiro Lobato, cidade a cerca de 130 quilômetros de São Paulo que ganhou o nome do mais ilustre munícipe. “Agora não sei não. É eleição pra que mesmo?”

A propriedade que Donizete administra, mediante o pagamento de dois salários mínimos, fica numa encosta de morro. Ali se cria “um gadinho” – cinco vacas leiteiras. Planta-se verdura numa pequena horta. “Os dias custam a passar”, diz o caipira do século 21. “A única distração que tem é a novelinha que passa na televisão à noite.”

Na área urbana da pequena cidade, hoje com 4,4 mil habitantes, também se percebe o tempo passar devagar. Moradores em cadeiras nas calçadas, um carro vez ou outra na rua, o latido distante de um cachorro. Em dias de festa, porém, a localidade se transforma. O grupo de catira Tangará, que surgiu na década de 1930, mantém a tradição da cultura tropeira com sua dança de passos firmes e palmas sincronizadas, ao ritmo da viola caipira. No mais, tudo é puro marasmo.

Na zona rural, pouco adiante da casinha ocupada por Donizete, existe uma pequena vila, abandonada, com só uma moradia habitada. Nela vivem Alessandra Vaz, de 38 anos, e seus três filhos. Alessandra é a mais perfeita tradução da “caipirinha cor de jambo” citada por Lobato. Com um adicional que lhe confere atualidade: vive dos R$ 202 mensais do Bolsa Família.

“Morava na cidade, vendia espetinho na praça”, conta. “Mas sou da roça, aqui é meu lugar, e resolvi voltar. Vou fazer uma lavoura para tirar o que comer e com o dinheiro que ganho do governo pago o aluguel.”

Casarão. Mais à frente fica a antiga sede da Fazenda Buquira. Foi no casarão de 19 cômodos e 80 janelas, construído em 1870, que Lobato rascunhou a lápis os contos de Urupês, numa escrivaninha que até hoje pode ser vista na sala principal. Ele herdou a fazenda do avô, o Visconde de Tremembé, em 1911. Era uma grande propriedade, de 1.515 alqueires, que o jovem se empenhou em tornar rentável: modernizou a agricultura, importou cabras, abriu novas frentes de plantação, introduzindo as culturas de café, milho e feijão.

A antiga sede da fazenda pertence hoje à professora aposentada Maria Lúcia Ribeiro Guimarães, de 75 anos. Seu avô comprou a propriedade de Lobato. Ela relembra as dificuldades do escritor, que, depois de exercer carreira de promotor de Justiça na vizinha Areias, resolveu virar fazendeiro para cuidar da propriedade herdada.

“Aqui ele sentiu na pele a dureza que é ser um produtor rural e foi registrando tudo isso nos seus escritos, muitos deles enviados ao jornal O Estado de S. Paulo”, relata Maria Lucia.

De acordo com o biógrafo Edgar Cavalheiro, em seu Monteiro Lobato: Vida e Obra, só um ano e pouco depois de se tornar fazendeiro é que o jovem escritor passou a atentar para os homens que o rodeavam.

“Vítima, como tantos outros lavradores, do instinto depredador do colono ou agregado, ele medita sobre o assunto e, de passagem, anota a possibilidade de uma obra de caráter profundamente nacional tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo”, anota o biógrafo.

No primeiro desses escritos de Lobato, eis que surge o perfil do homem nativo que habitava e, como se vê, ainda habita aquelas paragens: “Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie”.

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Atualização: Antônio Donizete, de 41 anos, morreu no dia 3 dezembro de 2017, vítima de um enfarte fulminante. O Estado havia o entrevistado em 9 de novembro.

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Temas polêmicos marcaram carreira de Lobato

Já em Urupês, seu primeiro livro publicado, o escritor causou alvoroço ao estigmatizar seu personagem principal, o caboclo, como um “piolho da terra”, parasita e preguiçoso que não agregava nada ao sistema produtivo

Fernando Granato, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

José Bento Monteiro Lobato (1882-1948) desenvolveu um talento paralelo ao de escritor: o de polemista. Já em Urupês, seu primeiro livro publicado, causou alvoroço ao estigmatizar seu personagem principal, o caboclo, como um “piolho da terra”, parasita e preguiçoso que não agregava nada ao sistema produtivo. Antes disso, o destruía.

Ao longo do último século foram muitos os que se debruçaram sobre o tema, tentando desmitificar o caipira traçado por Lobato. O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), em seu clássico O Povo Brasileiro, fala em erro de interpretação por parte do criador do Jeca Tatu.

“As páginas de Monteiro Lobato que revelaram às camadas cultas do País a figura do Jeca Tatu, apesar de sua riqueza de observações, divulgam uma imagem verdadeira do caipira dentro de uma interpretação falsa”, afirmou Ribeiro. “Nos primeiros retratos, Lobato o vê como uma espécie de praga incendiária que atiçava fogo à mata, destruindo enormes riquezas florestais para plantar seus pobres roçados.”

O antropólogo destaca que quem assim descrevia o caipira “era o intelectual-fazendeiro da Buquira, que amargava sua própria experiência fracassada de encaixar os caipiras em seus planos mirabolantes”. Anos depois, entretanto, o autor teria se redimido, segundo Ribeiro. “É certo que, mais tarde, Lobato compreendeu que o caipira era produto residual natural e necessário do latifúndio agroexportador. Já então propugnando, ele também, uma reforma agrária.”

Esse caipira, na visão do sociólogo e crítico literário Antonio Cândido de Mello e Souza (1918-2017), era antes de mais nada vítima de um sistema falido e não podia ser culpado por isso. “O mundo bandeirante era uma grande empresa econômica”, disse. “Esse bandeirante, quando se sedentariza, quando perde sua iniciativa maior, deixa de ter contato com o mercado, ele vira o caipira. É o bandeirante parado, economicamente atrofiado."

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Fernando Granato, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

Localizada na Serra da Mantiqueira, entre São José dos Campos e Campos do Jordão, Monteiro Lobato é uma das poucas localidades que ascenderam à condição de município, voltaram a ser distrito e, por fim, ganharam novamente status de unidade autônoma. 

Batizada inicialmente de Buquira, que em tupi significa ribeirão de pássaros, foi elevada a município em 1900 e voltou a distrito 34 anos depois. Em 1948, emancipou-se novamente e, um ano depois, ganhou o nome de seu mais ilustre morador.

As idas e vindas deixaram na pequena localidade uma feição muito mais de vila do que de cidade, de um lugar que pouco mudou. No ano passado, o município cresceu 0,84%, enquanto na região onde está inserido, de São José dos Campos, a taxa foi de 1,10%.

Dados da Fundação Seade mostram que o local que serviu de inspiração para Lobato desenvolver um de seus principais personagens, o caipira Jeca Tatu, é também uma cidade que não se renova: seu índice de envelhecimento (taxa de idosos de 60 anos ou mais para cada 100 jovens com menos de 15 anos) foi de 94,81% em 2017, enquanto no Estado alcançou 72,47%. Já a taxa de natalidade é de 6,93 por mil habitantes, contra 13,84 do Estado.

Indicadores econômicos também refletem essa estagnação. A renda per capita ficou em R$ 547,76, ante R$ 853,75 no Estado. O PIB per capita é de R$ 11,8 mil, bem menor que os R$ 43,5 mil da média estadual. 

Quem anda pelas tranquilas ruas da cidadezinha entende com mais propriedade o que Lobato quis dizer em um de seus contos, do livro Cidades Mortas, de 1919: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”, escreveu. 

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Fernando Granato, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

Turismo. Essa é a principal aposta da prefeita de Monteiro Lobato, Daniela de Cássia Santos Brito (PSB), para o desenvolvimento da cidade. O potencial é grande, pela proximidade com Campos do Jordão e São Francisco Xavier, destinos já consagrados no Estado de São Paulo, o que já pode ser sentido em fins de semana e férias de inverno, quando certa efervescência toma o lugar. 

Em agosto, a prefeitura de Monteiro Lobato entregou a documentação necessária para se tornar um Município de Interesse Turístico (MIT). 

Requisitos. Para receber o título, é necessário que o Estado sancione lei conferindo o novo status. Cumprindo todos os requisitos, como ter meios de hospedagem, serviços de alimentação, informação turística, capacidade de atender a população fixa e a flutuante, além do abastecimento de água e coleta de resíduos sólidos, Monteiro Lobato pode passar a receber anualmente R$ 650 mil, recurso do Fundo de Melhoria dos Municípios Turísticos, do governo do Estado, para investir no turismo e fazer o setor crescer.

“Isso significa ter mais recursos para investimento em infraestrutura turística”, afirma a prefeita Daniela. “Somos um município de pequeno porte e isso é de suma importância para o desenvolvimento de Monteiro Lobato.”

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