Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Refugiadas sofrem mais para obter trabalho

Excluídas dos setores de construção civil e da indústria, mulheres têm no idioma barreira para uma vaga em serviços

CARINA BACELAR / RIO, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2015 | 02h02

"Vous êtes heureuse? (Está feliz?)", perguntou, em francês, um funcionário da Cáritas-RJ - instituição católica que auxilia refugiados - a Gilda, congolesa de 34 anos que pediu ao Estado para não ser identificada. Um sorriso se abriu em resposta, afinal, após cinco meses no Brasil, ela conseguiu o primeiro emprego, como cuidadora de um idoso.

Entre as mulheres, a comemoração é rara: excluídas dos setores de construção e da indústria pesada, elas sofrem mais do que os homens com o desemprego quando chegam ao País. Levantamento da Cáritas-RJ, que atende 6.547 estrangeiros entre refugiados e solicitantes de refúgio, aponta que 70% dos 5.107 homens estão empregados, enquanto o índice entre as 1.440 mulheres é de 50%.

Queixa generalizada entre elas, a carência de trabalho é apenas um dos problemas que as mulheres enfrentam ao trocar seus países de origem pelo Brasil. Muitas são viúvas de guerras, outras foram separadas dos maridos em campos de refugiados e acabaram perdendo o contato com eles.

"Vêm muitas mulheres sozinhas, grávidas, com filhos. Aí fica ainda mais difícil para entrar no mercado de trabalho", explicou a coordenadora do Centro de Referência para Refugiados da Cáritas de São Paulo, Maria Cristina Morelli. Ela também afirmou que muitas refugiadas já foram vítimas de violência sexual. A instituição prestou no primeiro semestre 17.160 atendimentos a estrangeiros.

Gilda teve o marido morto dentro da própria casa. "À noite, um grupo armado entrou lá. Bateram em mim", disse, mostrando as cicatrizes nas costas. A filha do casal, de 5 anos, assistiu à execução. Gilda não conseguiu trazê-la para o Brasil. Desde que chegou, não teve notícias nem da menina nem da mãe, com quem deixou a criança. "Não tive como falar com elas. Me senti mal em deixá-las." No Congo, a guerra civil terminou oficialmente em 2003, porém, milícias ainda praticam ações violentas, principalmente no leste do país africano.

A congolesa Eva, de 37 anos, também chegou ao Brasil sem o marido e apenas com dois dos três filhos, de 9 e 15 anos. "Não sei se ele morreu ou se está vivo", disse a refugida, que mora no Jardim Gramacho, bairro pobre do município de Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio. Egressa de uma região de conflitos, se preocupa com a falta de emprego e se isso pode fazer com que os filhos sejam atraídos pela criminalidade. "Se o emprego nunca aparece, como eu vou viver com as crianças?", perguntou.

ALEGRIA E DOR

A tradutora congolesa Mireille Mulanga, de 37 anos, conhece os dois lados da adaptação de uma refugiada. Chegou ao Brasil em setembro de 2014 e, apesar de saber seis idiomas, não falava uma palavra de português. Perdeu o contato com o marido, que permaneceu no Congo em um campo de refugiados. "Tenho dois sentimentos. O da alegria, mas também a dor. É difícil para mim. Deixei minha família em um país em guerra, sem saber a condição deles", conta Mireille.

Formada em relações internacionais em seu país natal, ela agora trabalha como tradutora na Cáritas-RJ e continua acompanhando o difícil processo de adaptação das mulheres que chegam ao Brasil. Antes disso, foram "incontáveis" as negativas em entrevistas de emprego, mesmo com a qualificação. "Fui a muitas empresas, mas ninguém me dava essa oportunidade. Eu sofri, porque em várias empresas diziam: 'Você não fala português'."

OBSTÁCULO

É justamente a barreira do idioma que dificulta a entrada da mulher refugiada no setor de serviços, que teria maior capacidade de empregá-las. "Muitas vezes, elas são contratadas para o setor ou para estabelecimentos comerciais, em que precisam falar mais. Se você vem de uma cultura mais afastada, é bem complicado se inserir no mercado de trabalho", disse o representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur), Andrés Ramirez.

Segundo ele, a falta de vagas em creches públicas - problema que também acomete as brasileiras - é outro fator que complica o ingresso das estrangeiras no mercado de trabalho. Ramirez diz que a empregabilidade dos refugiados poderá ser afetada pelo aumento do número de chegadas, principalmente de sírios em São Paulo, porque o ensino de português por instituições assistenciais terá menos condições de atender à demanda que está crescendo.

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