‘Quem não reagiu está vivo’, diz Fleury sobre o Carandiru

Luiz Antônio Fleury Filho, governador do Estado de São Paulo à época do massacre, falou ao 'Estado' sobre ação

Bruno Paes Manso - O Estado de S. Paulo,

30 Setembro 2012 | 07h57

O ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho comandava o Estado de São Paulo em outubro de 1992, data do Massacre na Casa de Detenção do Carandiru, que causou a morte de 111 presos. Na semana passada, ao falar do episódio, ele parafraseou o atual governador Geraldo Alckmin (PSDB), que no dia 12 justificou nove mortes em uma operação das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) com a polêmica sentença: ‘Quem não reagiu está vivo’. Fleury falou com o Estado sobre o Carandiru.

Passados 20 anos, como o senhor enxerga esse evento?

Muita gente discute se a PM deveria entrar ou não. Ela tinha de entrar naquele momento, tanto que existiam dois juízes corregedores que disseram em todos os depoimentos que a entrada foi legítima. Eu não dei a ordem para entrar. Mas, se estivesse no local, daria.

O que causou a violência?

Logo depois que o coronel Ubiratan (Guimarães) entra e controla o térreo, explode uma tela de televisão na cabeça dele. Ele perde os sentidos, desmaia e aí deixa de haver comando. É a partir desse momento que começam a surgir várias versões sobre as quais não quero me estender porque ainda cabe à Justiça decidir.

Como o senhor viu o episódio?

Eu acho que já estava escrito. Maktub, como falam os árabes. Eu acredito que, se o Ubiratan não tivesse desmaiado o resultado teria sido outro. E a gente não pode esquecer que eram mais de 2 mil presos. Aí eu uso uma frase do governador Geraldo Alckmin, que ele falou recentemente: "Quem não resistiu está vivo". Eu tenho informações de como as coisas se passaram lá dentro. Mas nós ainda temos um julgamento pela frente e eu não quero que minhas palavras sejam mal utilizadas.

Como isso marcou o senhor?

Fizemos pesquisa na época: 50% aprovavam e 50% não aprovavam. Acabou não afetando minha popularidade. Mas politicamente me atingiu. Esqueceram todo o meu passado e eu passei a ser considerado como alguém que não tem outras qualidades e tivesse adotado atitudes quase de genocídio, o que não é verdade. Eu recebo ameaças até hoje. Ameaças de morte. Isso me obriga a uma série de cuidados. Já mudei telefone, mas não adianta.

O massacre ocorreu na véspera das eleições para prefeito. O senhor tentava eleger o Aloysio Nunes Ferreira. Isso influenciou na operação?

Não. Eu estava em Sorocaba, apoiando um candidato com mais chance. O Aloysio seria derrotado. Além disso, quando eu peguei o helicóptero, a informação é de que o impasse seria negociado. A invasão ocorreu quando eu estava no ar. Eu não tinha como dar a ordem. Depois, anunciamos tudo quando soubemos realmente quantos tinham morrido.

 
Mais conteúdo sobre:
Carandiru

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.