Quatro estações com quatro visões femininas

Júlia, Camila, Larissa e Fernanda pagaram os mesmos R$ 2,30; cada uma é exemplo da estações que frequentam

Fernanda Aranda, de O Estado de S.Paulo,

02 Abril 2009 | 23h59

SÃO PAULO - A viagem de metrô duas vezes por semana é sagrada. O embarque começa em Itaquera, estação próxima da casa de um só cômodo em que ela mora desde que ficou viúva. Com o véu na cabeça, tradição adquirida por causa da frequência na Igreja Bielo-Russa, Julia Portuceli, de 68 anos, pega a Linha Vermelha quase que de ponta a ponta até chegar à Estação Santa Cecília, bem na frente da igreja de mesmo nome e de sua santa de devoção. Uma contradição de credo que a senhora diz ser permitida na capital. “Em São Paulo, Deus é um só. Venho até aqui para encontrar paz.”

 

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Dona Júlia caminha em bando com senhoras que aparentam a mesma idade e deixam o metrô com destino a mesma igreja. Nas escadas, ela quase esbarra em Rosilene, 25, e Rosileide, 23, únicas mulheres da família Silva que calharam de engravidar na mesma época. Usar a Estação Santa Cecília virou caminho obrigatório para as gestantes poderem fazer o pré-natal na Santa Casa, distante algumas quadras daquele ponto de parada.

 

Barrigas salientes por causa da gravidez também circulam de metrô para chegar à Estação Clínicas, na Linha Verde, batizada assim por ficar na frente do HC, o maior hospital da América Latina. Na unidade, Camila Nagarol, de 23 anos, é pós-graduanda em Assistência Social e, juntamente com a amiga Evelyn Miranda, de 33, deixou São José dos Campos, no interior, para estudar na capital - motivo para as duas sempre usarem a estação, qualquer dia da semana. Instaladas na Lapa desde o início do mês, tudo que elas conheceram em São Paulo foi de metrô. “O Masp, a Paulista, a Vila Madalena e até o Tatuapé.”

 

Larissa Casares, de 21 anos, até poderia frequentar mais a Estação Clínicas, não tivesse desistido do curso de Medicina e escolhido Direito. A futura advogada agora é figura carimbada na Estação Sé, próxima do Fórum João Mendes e do Tribunal de Justiça, o que faz da estação ser mais ou menos um point do mundo da advocacia. Já Fernanda Pereira, de 18 anos, indecisa na carreira, não “tem a menor ideia” de qual das estações vai passar a frequentar. Seu semblante de dúvida é visto em outros rostos entre os passageiros que circulam na Estação Ana Rosa, perto de um grande cursinho preparatório para o vestibular.

 

Júlia, Camila, Larissa e Fernanda pagaram os mesmos R$ 2,30 para usar o metrô. Mas cada uma exemplifica o perfil diferenciado das estações que frequenta.

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