Alex Silva / Estadão
Alex Silva / Estadão

‘Quando vejo fogo, volta tudo à mente’

Desabamento no Largo do Paiçandu faz sobreviventes lembrarem outras tragédias

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2018 | 03h00

Mais de quatro décadas depois, os incêndios do edifício Andraus e do edifício Joelma – ambos no centro de São Paulo – ainda marcam a memória de muitos paulistanos. “Dá muita tristeza lembrar, mesmo tantos anos depois. E quando vejo a imagem de um incêndio, tudo volta à mente”, diz o corretor de seguros Edson Sant'Anna, de 63 anos, um dos sobreviventes do incêndio no Joelma.

Em 1.º de fevereiro de 1974, esse edifício foi palco de uma das maiores tragédias da cidade, deixando 187 mortos. Muitos deles se atiraram da janela, em desespero. Funcionário de um banco dentro do Joelma, Sant'Anna conta ter escapado por questão de minutos. “Meu posto ficava no mezanino, mas todas as sextas eu subia ao à tesouraria, no 20.º andar, para pegar documentos. Quando o incêndio começou, eu já havia descido.”

Quando alguém avisou que havia fogo no local, ele não se assustou. “Pensamos que era coisa pequena. Meus colegas e eu ainda pegamos nossos objetos pessoais calmamente antes de descer. Quando cheguei na calçada já havia corpos de quem se atirou. Olhei para cima e vi as chamas. Foi um choque”, lembra ele, que dois anos antes havia assistido da janela de um prédio de centro o incêndio no Andraus, que teve 16 mortos. 

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Osório Gonçalves, de 64 anos, não teve a mesma sorte de Sant'Anna: ele trabalhava no 21.º andar do Joelma. “Depois de horas de sufoco, fiquei com um grupo refugiado em um banheiro. O fogo avançava, o calor aumentava, as vidraças arrebentavam, os pulmões ardiam. Minhas orelhas ficaram queimadas, me esforçava para não desmaiar. Ouvíamos gritos das pessoas que se jogavam.” 

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Durante o resgate, Osório estava no 19.º andar e as escadas dos bombeiros só chegavam até o 13.º. Foi preciso descer vários andares por cortinas perigosamente atadas às colunas. “Uma moça que estava comigo escorregou e morreu. Eu tinha só 20 anos, mas não esqueço”, diz.

Lembrança. Sobrevivente do Andraus, Walter Sperandio, de 68 anos, se recordou vivamente daquele dia de terror ao ver na TV o prédio que desabou no Largo Paiçandu na última terça, no momento em que um homem era resgatado. “Esse era meu maior medo. Eu estava abrigado em uma escadaria onde as chamas não chegavam, mas via a violência do fogo refletida nos prédios vizinhos. Pensava que a estrutura poderia ceder”, diz.

“Até hoje, quando entro em um edifício, ou mesmo em uma sala de cinema, a primeira coisa que faço é localizar as saídas de emergência”, diz o contador Pedro, que também sobreviveu ao incêndio do Andraus

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Mudanças tardias. O desastre no Edifício Joelma, em 1974, levou a uma mudança completa nos padrões de segurança predial e prevenção de incêndios. Uma semana depois da tragédia, um decreto da Prefeitura fixou normas sobre o tema. E, naquele mesmo ano, foram retomados dos debates para revisar o Código de Obras de São Paulo, de 1934, que nunca havia passado por uma revisão, que atualizasse a lei para a nova estrutura urbana. 

“Enquanto eu fazia o resgate no Joelma, estava revoltado, porque dois anos antes, após o incêndio do Andraus, os gestores públicos prometeram atualizar o Código, mas não fizeram absolutamente nada”, conta o coronel Nilton D'Addio, do Núcleo de Pesquisa da Memória do Corpo de Bombeiros. 

“Hoje um incêndio como aqueles não ocorreria. Os prédios têm portas corta-fogo, alarmes de incêndio, corrimão, luzes de emergência, portas anti pânico, extintores, hidrantes, rotas de fuga e planos de evacuação. A catástrofe do Joelma serviu, ao menos, para que essas coisas fossem revistas”, afirma o coronel. Atualmente, além de regras locais, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e o Código de Defesa do Consumidor preveem normas de prevenção a incêndios.

De acordo com D’Addio, o fogo no edifício Andraus foi muito mais violento, mas as condições de sobrevivência eram muito melhores que no Joelma. A maior parte dos sobreviventes do Andraus foi resgatada pelo heliponto, que não existia no Joelma. 

“O Andraus tinha uma escadaria voltada para o fundo do prédio e isolada em todos os andares com uma porta comum. Além disso, o vento soprava favoravelmente, levando as chamas para o lado contrário da escada. Se não fossem essas condições, aquilo seria uma carnificina”, explica D’Addio. 

Já no Joelma, não havia nenhuma escada externa. Para piorar, as escadarias internas funcionaram como uma chaminé. “As pessoas se lembravam do Andraus e subiam ao terraço para serem resgatadas, mas lá não havia onde permanecer.”

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