Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Quadrilha, que antes assaltava bancos, já tinha invadido 20 casas no Morumbi

Segundo investigações feitas ao longo de meses, grupo desbaratado anteontem não tinha integrantes fixos e roubava residências no bairro desde 2010, chegando a obter valores milionários; entre os dez mortos, nove tinham passagem pela polícia

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Uma quadrilha com longa ficha criminal, assaltos milionários e histórico de confrontos com policiais do Departamento de Investigações Criminais (Deic). Esse é o perfil dos suspeitos mortos no tiroteio com policiais civis, no domingo, 3, na região do Morumbi, na zona sul da capital. Entre os integrantes, especialistas em ataques a bancos e proprietários de armamento pesado. Todos articulados em torno de Mizael Pereira Bastos, o Sassá, de 28 anos, que participou de pelo menos 20 assaltos a casas da região, entre elas a mansão do cunhado do governador Geraldo Alckmin (PSDB), no ano passado.

Segundo a Polícia Civil, nove dos dez suspeitos mortos tinham passagem policial - cinco deles, com mandado de prisão aberto pela Justiça, principalmente por roubo. A exceção era Rodrigo Kaique Evangelista dos Santos, de 18 anos, o mais novo da quadrilha.

Considerado por policiais como o “rei do roubo à residência”, Sassá é apontado como uma espécie de articulador do bando, que não tinha integrantes fixos e fazia invasões a mansões do Morumbi desde 2010. Para as investigações, ele seria responsável por levantar informações dos locais e reunir a equipe para praticar o roubo, convidando criminosos que dispunham de armamento pesado para fazer a “contenção”.

“Essa pessoa tem pelo menos 20 roubos identificados, com impressões digitais e outras provas, só aqui no Deic”, afirmou o delegado Ítalo Zaccaro Neto, titular da 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra o Patrimônio, que chefiou a operação. “Só hoje (segunda-feira) chegaram seis vítimas de roubos no Morumbi que teriam reconhecido fotos.”

Procurado por roubo, Sassá aparece segurando um fuzil em imagens de câmeras de segurança da casa de um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, furtada no dia 20 de agosto. O líder foi morto na Rua Santo Eufredo e estava com o tênis, da marca Lacoste, que pertencia ao magistrado. Na ocasião, não havia ninguém dentro da residência e os ladrões levaram até as malas das vítimas para carregar os objetos furtados.

O bando costumava agir aos domingos. Também atacava o Jardim Europa e condomínios de luxo na Grande São Paulo e no interior. O principal alvo dos bandidos eram relógios, joias e dinheiro. Os ataques chegavam a ser milionários: uma das vítimas do bando avaliou em R$ 2 milhões um anel que a quadrilha levou. A Polícia Civil não estima o valor total que chegou a ser roubado pelos criminosos na soma de todos os casos.

 

Migração. As investigações apontam que o alto valor obtido nos assaltos também atraiu o interesse de criminosos especialistas em outras modalidades de roubo, como explosão de caixas eletrônicos e ataques a agências bancárias e transportadoras. Um deles seria Felipe Macedo de Azevedo, o Miojo, de 24 anos, que era procurado da Justiça por homicídio e receptação - o outro líder do bando.

Miojo entrou na mira do Deic pelo menos desde 2012, quando baleou um policial do departamento na cabeça, em um assalto no Capão Redondo, na zona sul da capital. O agente sobreviveu, mas perdeu um dos olhos.

Ele também esteve em pelo menos outros três confrontos com agentes do Deic no interior, só neste ano: a explosão de caixas eletrônicos na prefeitura de São Roque, além de agências bancárias em Indaiatuba e de Aguaí. Essas ocorrências terminaram com sete suspeitos mortos, além de guardas civis e policiais militares baleados.

Segundo a Polícia Civil, ele também participou do assalto à casa do secretário da Indústria e Comércio de Embu das Artes, na Grande São Paulo, em abril. A vítima, Alcionei Miranda Feliciano, reagiu e acabou sendo baleada na perna. O suspeito também participou do furto à mansão do juiz.

Na segunda-feira, 4, policiais encontraram sete bananas de dinamite na casa dele.“O Miojo demonstra bem a transição entre roubo a caixa eletrônico, a carro forte, à base e, então, à residência”, afirmou Zaccaro Neto. "Você imagina que um caixa eletrônico tem R$ 70, R$ 80 mil”, disse o delegado. “Numa residência, de joias, relógios, com certeza o valor, se não for igual, é superior a esse.”

A quadrilha era investigada há sete meses. Alguns dos integrantes também estão associados a ataques a caixas eletrônico no Hospital das Clínicas e em Guarulhos, na Grande São Paulo. Segundo as investigações, entretanto, o grupo não tinha formação fixa. “Não é que uma coisa consistente, coesa, de sempre trabalhar juntos, afirmou Zaccaro Neto.

Os suspeitos moravam na região sul de São Paulo, no Capão Redondo, Grajaú e em Taboão da Serra. Com eles, os policiais apreenderam quatro fuzis AR-15, além de três revólveres calibre 38, e duas pistolas: uma .40 e a outra 9 mm.

Mortos. Hudson Macedo, o Neném, de 29 anos, que tinha passagem por tráfico de drogas, receptação e uso de documento falso, também era procurado da Justiça. Completam a lista de foragidos Ires da Silva Queiroz, de 28,  que já havia praticado roubo, e Paulo Alberti Mauriti da Costa, de 29, que era relacionado roubo à residência.

Sem mandado aberto contra ele, Rafael Anunciação dos Santos, de 28 anos, tinha sido fichado por roubo. Já Edmilson José Rocha, de 35 anos, e Jeferson Souza de Melo, de 33, praticaram furto e roubo, segundo a Polícia Civil. Este último crime se repete na ficha corrida de  Paulo Ricardo Sena Matos, de 30 anos, que também colecionava passagens por formação de quadrilha e resistência.

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