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Professor de história espancado afirma que foi confundido com ladrão por dono de bar

Laura Maia de Castro - O Estado de S. Paulo

01 Julho 2014 | 18h 12

Bombeiros salvaram André Luiz Ribeiro de linchamento, mas duvidaram que ele era docente. Para provar, professor teve de falar sobre Revolução Francesa. 'Tive medo de ficar preso por meses', diz

SÃO PAULO - O professor de história André Luiz Ribeiro, de 27 anos, foi espancado na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, na última quarta-feira, 25, após ter sido acusado de roubar um bar. Segundo Ribeiro, um grupo de mais de 15 pessoas o agrediu por tê-lo confundido com um assaltante enquanto praticava cooper na região. Ele foi indiciado por roubo e passou dois dias presos antes de conseguir na Justiça a liberdade provisória.

Contra as agressões e o indiciamento, amigos, alunos e familiares marcaram um ato para às 18h desta terça-feira, 1.º, em frente ao 101.°DP (Jardim Embuais). Na internet, mais de 130 pessoas já compartilharam a foto de perfil do professor que mostra o rosto com hematomas após a tentativa de linchamento.

Reprodução/Facebook
"Eu via esse tipo de caso nos jornais e na TV, mas a gente nunca acha que vai acontecer conosco"

Ribeiro conta que era por volta das 19h da última quarta-feira quando saiu de casa para correr, como costuma fazer todos os dias. Ao passar pela Rua João Batista Gomes Ciqueira, em Balneário São José, notou olhares estranhos, mas decidiu continuar o exercício. "De repente veio um carro na minha direção. Levantei as mãos na mesma hora achando que se tratava de um assalto, mas sem entender nada. Foi quando o dono do bar que tinha sido roubado e seu filho saíram do veículo e começaram a me agredir", disse Ribeiro.

O professor teve os braços e as pernas acorrentados e conta que levou chutes e socos pelo corpo. "Eu não tive tempo de dizer nada. Vieram mais de 15 pessoas, até mesmo mulheres. Foram muitas agressões até que chegaram os bombeiros e dispersaram os moradores. Ainda bem, porque ouvi alguém dizer 'pega o facão'", relatou.

Os bombeiros, segundo Ribeiro, duvidaram que ele era professor de história e pediram então que ele falasse sobre a Revolução Francesa. "Tive de falar da ascensão da burguesia na França, da queda da Bastilha em 1789 e das diferentes fases da revolução para que eles acreditassem", conta. 

Segundo o Corpo de Bombeiros, as equipes que passavam no local evitaram o linchamento e prestaram os primeiros socorros. "Em nenhum momento houve desrespeito ou deboche na ação dos bombeiros", afirmou a corporação.

A Polícia Militar chegou em seguida e, diante da afirmação do dono do bar de que se tratava de um dos três criminosos que haviam roubado R$ 480 do estabelecimento, encaminharam Ribeiro ao 101.°DP (Jardim Embuias), onde ele foi indiciado por roubo. Antes, o professor foi levado ao pronto-socorro. "Dormi uma noite neste DP, dividindo a cela com outro preso, apesar de ter curso superior. Só no outro dia que fui levado para outra delegacia, onde dormi em uma cela sozinho antes de conseguir a liberdade provisória", contou.

Procedimento. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) disse que o professor foi preso em flagrante "em cumprimento do artigo 302 do Código Penal, já que a vítima o reconheceu como um dos participantes do roubo ao estabelecimento comercial em duas oportunidades" e que a polícia não pode identificar quem bateu no professor porque as pessoas se dispersaram com a chegada da viatura. Ainda de acordo com a SSP, o delegado André Antiqueira, titular do 101º DP, "se coloca à disposição para ouvir em depoimento quem tenha novas informações para acrescentar à investigação".

Nesta quarta-feira, 2, Ribeiro vai registrar boletim de ocorrência por tentativa de homicídio por parte do dono do bar, identificado como Djalma dos Anjos Nonato. "Eu via esse tipo de caso nos jornais e na TV, mas a gente nunca acha que vai acontecer conosco. A dor que fica é a psicológica. Tive muito medo de ficar preso por meses e não conseguir dar aula", disse Ribeiro.

A reportagem não conseguiu contato com Nonato.