Profecias de Gentileza vão ser restauradas

Obra espalhada por viadutos do Rio ganhará formas originais em oito meses

Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2010 | 00h00

José Datrino, o autodenominado Profeta Gentileza, morreu em maio de 1996. Quinze meses depois, a Companhia de Limpeza do Rio cobriu com tinta cinza a maioria dos 56 murais pintados por ele em viadutos do Caju, zona portuária, sob o pretexto de "limpar a cidade de pichações". Houve reação da população e a prefeitura decidiu apoiar a recuperação, concluída em maio de 2000. Agora, dez anos depois, nova restauração vai devolver as formas originais da obra.

Os painéis enigmáticos de Gentileza denunciam o "Capetalismo" e anunciam, como alternativa, que "Gentileza gera gentileza". Responsável pelas duas reformas, o arquiteto Leonardo Guelman, de 46 anos, define os murais como "livro urbano de ensinamentos". Segundo ele, trata-se da maior manifestação de arte mural pública e espontânea no Rio. "O livro está meio apagado, esmaecido." Dessa vez, por ação do tempo.

Professor do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense (UFF), Guelman recebeu o título de mestre em Filosofia com uma dissertação sobre o Profeta Gentileza, defendida em 1997. Seu orientador na época foi o teólogo Leonardo Boff. "Ele (o Profeta Gentileza) intuitivamente captou a crise da modernidade. Fez a crítica a partir da cultura popular", diz Boff.

A quem o chamava de louco, Gentileza respondia: "Maluco para te amar e louco para te salvar", conta Guelman. "Ele próprio se definia como maluco beleza, em alusão a Raul Seixas. Não tinha problema com isso."

O estandarte que carregava, a longa barba e a bata branca ajudaram a compor um personagem excêntrico. Foi, por 35 anos, até morrer, aos 79, um andarilho que pregava contra a minissaia e criticava o "Papa-Papão". "Todo profeta sai da norma. Gentileza é uma figura que desafia a gente. Conversei com ele e não vi nada de louco. Imagino que São Francisco tenha sido assim", diz Boff.

Preservação. Tombados pelo município em novembro de 2000, os murais estão na internet (www.riocomgentileza.com.br). Pintados nas pilastras entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, ficam entre a Rodoviária Novo Rio e o Cemitério do Caju.

Orçada em R$ 350 mil, a restauração deve durar 8 meses. É patrocinada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), por meio da renúncia fiscal prevista em lei municipal. O projeto será lançado no dia 6 em evento na rodoviária, com a presença de filhos de Datrino. As pichações acima e abaixo dos murais serão mantidas. "Quem sou eu para apagar?", pergunta Guelman.

QUEM FOI

JOSÉ DATRINO

CONHECIDO COMO PROFETA GENTILEZA

José Datrino nasceu em 1917 em Cafelândia, interior paulista. Dono de uma transportadora no Rio, abandonou a família em 1961 depois de um "chamado" recebido dias após o incêndio no Gran Circus Norte Americano, em Niterói, que fez centenas de vítimas. Morreu aos 79 anos.

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