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Primeiro ônibus a bateria começa a circular em São Paulo

Caio do Valle - O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2013 | 16h 07

De fabricação chinesa e batizado de e-Bus, o veículo, que 'estreia' na sexta, 22, sem passageiros, conta com 504 células de fosfato de ferro para ser alimentado

SÃO PAULO - A nova geração de ônibus da cidade de São Paulo terá seu passo inicial - ou melhor, sua viagem de lançamento - na sexta-feira, 22. É quando o primeiro ônibus movido a baterias da capital começa a circular nas ruas paulistanas. De fabricação chinesa e batizado de e-Bus, o coletivo conta com 504 células de fosfato de ferro para ser alimentado - e não usa nada de combustível fóssil, o que o impede de lançar poluentes no ar, como a maior parte da frota atual, movida a diesel. Ele também não depende de fios para circular por aí, como os trólebus, pois é carregado na garagem, antes de sair.

 

Inicialmente, a São Paulo Transporte (SPTrans), empresa da Prefeitura que gerencia o sistema de ônibus, fará o e-Bus circular sem passageiros, e utilizará 81 bombas de água de 50 kg cada um para simular o peso das pessoas em carregamento máximo. O coletivo tem autonomia para percorrer até 250 quilômetros. Segundo a Secretaria Municipal dos Transportes, em média, um ônibus da cidade hoje anda 230 quilômetros durante um dia.

Por três meses, o veículo rodará em itinerários de linhas da zona sul e da região central, apenas para ser testado em desafios tipicamente locais: ladeiras íngremes, anda e para constante do trânsito, asfalto nem sempre tão liso. O e-Bus foi cedido para os testes pela BYD, montadora que o produziu, e está sob responsabilidade da viação MobiBrasil, em uma garagem no bairro de Pedreira, na zona su da capital paulista.

A autorização para o elétrico circular foi concedida pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) na quarta-feira passada - o veículo chegou ao Brasil em outubro, um mês após uma delegação da SPTrans visitar sua fábrica na China.

"Ele vai 'suar' na nossa mão, vai ter que mostrar a que veio", afirma o diretor de Operações da SPTrans, Almir Chiarato, acrescentando que, por enquanto, não há custo nenhum para a Prefeitura. Contudo, a chinesa BYD já procura um terreno para se instalar no Estado, com vistas a futuros negócios no País. "Daqui, planejamos expandir os negócios para a América Latina", diz Hercílio Becker, gerente de Pós-Vendas da empresa.

A Prefeitura, de fato, avalia adotar ônibus a bateria, mas ainda não estabeleceu uma meta. De acordo com Chiarato, a ideia é usar esse modelo de veículos em linhas mais rápidas e curtas. "Com a restruturação da rede, vamos ter muitas linhas de 30 e 35 minutos, onde este tipo de carro é ideal", diz ele, referindo-se à reorganização das linhas de ônibus que a SPTrans começou a colocar em prática neste ano.

Na semana passada, o Estado participou de uma viagem do ônibus dentro da garagem. O veículo chama a atenção pelo silêncio, na comparação com os movidos por motor a combustão. Há três conjuntos de bateria: um sobre as rodas dianteiras, outro sobre as traseiras e um sobre o teto do veículo. O carregamento é feito por meio de pequenas entradas na lateral, onde são encaixados cabos ligados a um carregador. O processo de carga dura 5 horas, quando as baterias estão completamente descarregadas.

Passageiros. Em meados de março de 2014, mais dois ônibus a bateria chegarão da China já com as especificações feitas pela Prefeitura, o que os tornará aptos a rodar com passageiros. Esses coletivos, explica João Carlos Fagundes, superintendente de Serviços Veiculares da SPTrans, passarão a circular em itinerários de avenidas como a Cupecê, na zona sul. "Vamos colocá-los em linhas cheias, justamente para ver a sua capacidade operacional."

O ônibus que já está em solo paulistano tem a configuração interior original de fábrica, ou seja, em conformidade com a legislação da cidade de Shenzhen, na China, onde foi produzido. Para os próximos dois poderem andar com passageiros em São Paulo, a SPTrans fez uma lista de 25 itens a serem alterados, entre os quais a colocação de vidros basculantes (que podem ser abertos e fechados pelos próprios usuários) em todas as janelas, a reconfiguração dos assentos e a retirada do ar-condicionado.

O e-Bus é testado em outras grandes cidades do mundo. Em Nova York, alguns veículos já estão circulando nas ruas, assim como em Los Angeles, ambas nos Estados Unidos. Em sua cidade natal, Shenzhen, existem mil desses ônibus no sistema de transporte público desde 2010.

Em Bogotá, na Colômbia, o sistema de corredores expresso Transmilenio em breve passará a contar com veículos elétricos a bateria articulados. Becker, representante da BYD no Brasil, não informou quanto custa para se produzir cada ônibus a bateria.

"Eles ainda são mais caros que os ônibus convencionais, mas essa iniciativa é muito positiva", afirma o urbanista e consultor de Engenharia de Tráfego Flamínio Fichmann. Para ele, a tendência é que o preço dos ônibus elétricos caia acentuadamente nos próximos anos, o que deve ajudar a Prefeitura a atualizar a sua frota, deixando-a bem mais limpa.

O especialista destaca ainda que, frente aos trólebus, que também não emitem poluentes, os ônibus a bateria são mais vantajosos, já que a rede aérea dos trólebus é custosa para ser mantida. "Essa é a aposta certa da Prefeitura." A fabricante promete que cada veículo tem vida útil de 30 anos, embora as baterias tenham que começar a ser substituídas após uma década de uso. Um dos pontos fracos é que, em caso de apagão, os ônibus precisam de geradores para serem recarregados.

A cidade tem atualmente cerca de 15 mil ônibus, dos quais 190 são trólebus.