Pressão popular vai garantir qualidade

Especialistas ouvidos pelo 'Estado' dizem que movimento ampliou interesse pelo transporte público e deterioração terá ônus político

Caio do Valle, Carla Araújo, Fernanda Bassette, Giovana Girardi e Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2013 | 02h05

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou ontem que vai "apertar o cinto" e cortar investimentos por causa da revogação do aumento das tarifas. A qualidade do serviço de metrô, trem e ônibus, porém, deverá se manter estável, mesmo com a redução da passagem. De acordo com especialistas ouvidos pelo Estado, os protestos tornaram a população mais exigente em relação ao transporte e intensificaram o ônus político da deterioração do sistema.

O secretário estadual de Planejamento, Julio Semeghini, informou que Alckmin tem alternativas financeiras. "Ele tem autonomia para trabalhar em R$ 9 bilhões de investimento", disse. Os recursos, portanto, virão de obras que estavam previstas, mas que atrasaram ou podem ser postergadas. "Estamos fazendo um levantamento sobre que obras poderão ser essas. A decisão será do governador."

O congelamento da tarifa em R$ 3 custará R$ 210 milhões por ano ao Metrô e à Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Esses recursos virão de cortes em investimentos feitos pelo Tesouro do Estado em diversos setores. A Prefeitura não divulgou de onde virão os recursos orçamentários para baixar a passagem de ônibus.

"O Movimento (Passe Livre) não tratou apenas dos 20 centavos, mas da qualidade do serviço", afirmou Creso de Franco Peixoto, especialista em transportes e professor do curso de Engenharia da Fundação Educacional Inaciana (FEI). "A decisão política certamente tem de ser balizada na busca da manutenção, da qualidade e do atendimento", disse.

Para o arquiteto e consultor de Trânsito Flamínio Fichmann, tanto o governo municipal quanto o estadual terão de reconsiderar suas prioridades e, proporcionalmente, até investir mais de seus orçamentos no setor de transporte público.

"O medo dos governantes de voltar atrás no valor da tarifa era mais o receio de ceder a uma pressão e não saber onde isso poderia parar do que administrar esses recursos", afirmou. Fichmann defende que os gestores públicos tenham mais "coragem" e apostem em medidas como o pedágio urbano, para levantar investimentos para o transporte público de massa.

Limites. O economista Felipe Salto, especialista em finanças públicas da Tendências Consultoria, explica que o Orçamento do Município está "hiperpressionado", uma vez que o serviço da dívida (juros mais amortização) corresponde a mais de 70% daquilo que se investe.

"Diante desse caos e da necessidade de dar uma resposta urgente ao povo, o único caminho que a Prefeitura e o Estado encontraram foi o de revogar o aumento da tarifa. Isso, de fato, terá de ser financiado com corte de gastos ou aumento de tributação. Não tem como não comprometer o Orçamento."

O professor Rafael Alcadipani, da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV, diz que o anúncio não deixou claro quem pagará a conta. "A decisão foi rápida demais. Apagar o incêndio para o pessoal sair da rua, baixar a tarifa e depois explicar como."

Altino de Melo Prazeres Júnior, presidente do sindicato dos metroviários, diz que há mudança de prioridade do governo em relação ao transporte. "O tema entrou com peso. Abre um debate para melhorar o setor."

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