Presidente do TJ de SP comete gafe

Desembargador relacionou casos de pedofilia com a Igreja Católica; para padre, frase indica 'grande preconceito' e desconhecimento

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2010 | 00h00

O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo cometeu ontem uma gafe ao relacionar casos de pedofilia com a Igreja Católica. O desembargador Antonio Carlos Viana Santos afirmou que muitas vítimas não prestam queixa do crime com medo de ficarem estigmatizadas e poderem ser chamadas de "comida de padre".

Ele deu a declaração no evento de lançamento do Fórum Internacional de Justiça, encontro com delegações de quase 50 países, que ocorrerá em São Paulo de 13 a 15 de maio. Entre os temas que serão discutidos estão a adoção internacional de crianças, a corrupção na medicina, tráfico de pessoas e formas de combate à pedofilia.

O desembargador fez o comentário ao citar as dificuldades que fazem investigações de casos de pedofilia não avançarem. "A vítima, psicologicamente, se retrai. Então, sem o testemunho dela, que é o começo de tudo, não há nada", disse Viana Santos, que se desculpou antecipadamente pelas frases a seguir.

"Desculpe o termo, são todos maiores. Eu sei que vai para o ar, mas eu sou assim. Já imaginou numa cidade aí de uns 100 mil habitantes: "ah, aquele lá é comida de padre?" Já imaginou como é que fica na cidade? Então ele se retrai, se esconde", afirmou.

Ao comentar reportagem do Estado do dia 23, sobre partos em índias, muitas delas crianças de 11 anos, Viana Santos fez outra declaração polêmica. "Eu não considero isso pedofilia. É um acasalamento. Eles estão vivendo à moda deles."

Fórum. No encontro de maio, a câmara temática que vai discutir a pedofilia será presidida por Viana Santos. O evento também vai contar com autoridades de outros países notórias no combate ao crime. Uma delas é a procuradora italiana Diana de Martino, responsável por ações contra italianos que realizam turismo sexual no Brasil. Além de parcerias estratégicas no combate ao crime, um dos objetivos é criar projetos que possam ser enviados para a análise do Congresso Nacional.

Reação. A Igreja Católica reagiu às declarações do desembargador, feitas em um momento em que surgem acusações contra a entidade.

"A Igreja quer que se rompa o silêncio desse crime, seja por parte de padres, da família ou de qualquer membro da sociedade", disse Antônio Aparecido Pereira, o padre Cido, vigário episcopal de Comunicação da Arquidiocese de São Paulo. "A frase é um grande preconceito. E mostra total desconhecimento do trabalho feito pela Igreja."

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